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Depois de viagem normal, através dos caminhos comuns, alcançamos nevoenta região, onde asfixiante tristeza parecia imperar incessantemente.
De outras vezes, eu já atravessara sítios semelhantes, gastando apenas alguns minutos.
Atendendo a imperativos da missão, o Assistente Jerônimo procurava certa localidade, sob a denominação expressiva de “Casa Transitória de Fabiano”. Organizada por ele, era confiada, periodicamente, a outros benfeitores de elevada condição, em tarefa de assistência evangélica, junto aos Espíritos recém-desligados do plano carnal. — Na Casa Transitória — prosseguia Jerônimo, explicando-nos — prestaremos o auxílio que nos seja possível à organização e asilaremos, em seguida, os irmãos que nos cabe socorrer. — Além disso, teremos aí todo o equipamento necessário aos trabalhos que nos cumpre realizar. Curioso, guardei silêncio e esperei. Não se passou muito tempo, defrontava-nos casarão enorme em plena sombra.
Nada que evidenciasse preocupação artística e bom gosto na construção. — O nome do instituto, André, fala por si mesmo.
Todavia, o trabalho desta Casa é dos mais dignos e edificantes.
Neste edifício de benemerência cristã, centralizam-se numerosas expedições de irmãos leais ao bem, que se dirigem à Crosta Planetária ou às esferas escuras, onde se debatem na dor seres angustiados e ignorantes, em trânsito prolongado nos abismos tenebrosos. Além disso, a Casa Transitória de Fabiano, à maneira de outras instituições salvadoras que representam verdadeiros templos de socorro nestas regiões, é também precioso ponto de ligação com as nossas cidades espirituais em zonas superiores. Nesse instante, antes que Jerônimo pudesse prosseguir nos esclarecimentos, atingimos as barreiras magnéticas, a distância de alguns metros do portão de acesso ao interior.
Atendidos por trabalhadores vigilantes, que sem hesitação nos ofereceram passagem, acionamos pequeno aparelho que nos ligou, de pronto, ao porteiro prestativo. — Fui avisada ontem — disse, bondosa — de que a missão chegaria hoje e rejubilamos com isso. — Ao seu dispor — explicou-se Jerônimo, com gentileza. — Este abrigo de amor e paz cooperará conosco, asilando-nos alguns tutelados convalescentes, e, por nossa vez, desejamos ser úteis à casa, de algum modo. Zenóbia envolveu-nos num sorriso de simpatia acolhedora e, após rápidos minutos de silêncio, considerou: — Aceitamos o concurso. — Sem dúvida — atalhou Jerônimo, desvanecido —, teremos prazer. Invisível campainha ressoou, estridente, com estranha entonação. Não decorreram cinco segundos e alguém penetrou a sala, rumorosamente. Era determinado servo da vigilância, que anunciou, precipite: — Irmã Zenóbia, aproximam-se entidades cruéis. A orientadora empalideceu ligeiramente, mas não traiu a emoção com qualquer gesto que denunciasse fraqueza. — Acendam as luzes exteriores! — ordenou —todas as luzes!
Retirou-se apressadamente o emissário, enquanto pesado silêncio abatia-se sobre nós.
Luciana fizera-se lívida. Jerônimo e Zenóbia demonstravam, através do olhar, asfixiante preocupação. Registrar-se-iam fatos que eu ignorava? Será que Espíritos reconhecidamente maus também organizavam expedições semelhantes às que realizávamos para o bem? Que espécie de entidades seriam aquelas, para infundirem tamanha preocupação nos dirigentes esclarecidos e virtuosos de nossos trabalhos e tão grande terror nos subordinados daquela casa de amor cristão? Impressionara-me a expressão facial de dor e incerteza do servidor que trouxera a notícia. Seriam tantos os malfeitores das sombras para justificar semelhante pavor? Sentia o raciocínio extremamente reduzido para comportar a imensidade das interrogações que me afloravam à mente.
Através de minúscula abertura, notei que enormes holofotes se acendiam de súbito, no exterior, como as luzes de grande navio assaltado por nevoeiro denso em zona perigosa. — É lamentável — exclamou Zenóbia, com a manifesta intenção de restaurar-nos a tranqüilidade — que tantas inteligências humanas, desviadas do bem e votadas ao crime, se consagrem aqui ao prosseguimento de atividades ruinosas e destruidoras. Nenhum de nós ousou dizer qualquer palavra. A diretora, porém, esforçando-se por sorrir, continuou: — A tragédia bíblica da queda dos anjos luminosos, em abismos de trevas, repete-se todos os dias, sem que o percebamos em sentido direto. Observando-me, possívelmente, a angústia íntima, em face de suas considerações, Irmã Zenóbia acrescentou: — Chegará, porém, o dia da transformação dos gênios perversos, desencarnados, em Espíritos lucificados pelo bem divino. Por minha vez, gostaria de formular várias indagações, porém a expectativa fizera-se mais pesada. — Alguns séculos — prosseguiu a diretora — de reencarnações terrestres constituem tempo escasso para reeducar inteligências pervertidas no crime. Indefiníveis ruídos alcançaram-nos o ouvido, e Zenóbia, pálida, calou-se igualmente. Em poucos segundos, tornaram-se mais nítidos. Eram gritos aterradores, como se a curta distância devêssemos afrontar hordas de enraivecidos animais ferozes. Entre nós, Luciana parecia a mais atemorizada.
Torcia nervosamente as mãos, até que, não lhe sendo possível suportar por mais tempo a inquietação, dirigiu-se à diretora da casa, suplicando:
— Irmã, não será conveniente endereçarmos fervorosa rogativa a Deus? Zenóbia sorriu com benevolência e respondeu: — Já fiz meus atos devocionais de hoje, preparando-me para as ações eventuais do trabalho no decurso do dia. Decidamos, pois, qualquer problema a sobrevir, com resolução e confiança em Nosso Pai e em nós próprios. A esse tempo, tornara-se enorme o vozerio. Pus-me, assombrado, a identificar rugidos estridentes de leões e panteras, casados a uivos de cães, silvos de serpentes e guinchos de macacos. Em dado momento, ouvimos explosões ensurdecedoras. Quase no mesmo instante, certo auxiliar penetrou o recinto e comunicou: — Atacam-nos com petardos magnéticos. A diretora resoluta ouviu, serena, e determinou: — Emitam raios de choque fulminante, assestando baterias. As farpas elétricas deviam ser atiradas em silêncio, porque as explosões diminuíram até à extinção total, percebendo-se que a horda invasora se desviara noutro rumo, pelo ruído a perder-se distante. Respiramos aliviados. Estampou-se confortadora expressão na fisionomia de Zenóbia, que falou, satisfeita: — Agora, peçamos ao Mestre conceda aos infelizes o caminho adequado às suas necessidades. Escoaram alguns minutos, nos quais elevamos pensamentos de gratidão e júbilo ao Cristo Salvador. Tornando à palavra livre, considerei: — Que impressionantes rugidos ouvimos! não se figuravam lamentos de corações sofredores, mas algazarra de feras soltas. — Esses bandos, porém — observou a diretora, sensatamente —, são antigos. Enquanto concordávamos, em silêncio, prosseguiu, compungida: — Enraízam-se os pobrezinhos tão intensamente nas ideias e propósitos do mal e criam tantas máscaras animalescas para si mesmos, em virtude da revolta e da desesperação a lhes consumirem a alma, que adquirem, de fato, a semelhança de horrendos monstros, entre a humanidade e a irracionalidade. Antes que pudesse continuar nas observações tristes, penetrou um assessor no salão e dirigiu-se à orientadora do instituto: — Irmã Zenóbia, ambos os desequilibrados que deram entrada, anteontem, romperam as celas e tentam fugir. A orientadora atalhou a notificação, expedindo ordem: — Prendam-nos, imediatamente, com a colaboração dos vigilantes. Temos responsabilidade. Encontrava-se o cooperador junto à porta de saida, quando outro auxiliar apareceu, atento. — Irmã — disse, respeitoso —, as notas da Crosta chegaram agora. — Tomarei providências — informou a diretora sem se alterar.
Íamos reiniciar a palestra, mas aproximou-se uma jovem serviçal, fazendo também sua participação:
— Irmã Zenóbia, a turma de vigilância, que descansou há três dias, voltou a postos. — Mande-a retomar os lugares — recomendou ela — e que os irmãos exaustos repousem convenientemente. Afastou-se a ativa emissária e, quando eu pretendia, por minha vez, comentar a movimentação de trabalho da casa, outro colaborador assomou à porta e avisou: — Irmã, a expedição Fabrino pede auxílio da Crosta para os serviços das reencarnações expiatórias de que se encontra encarregada. A orientadora refletiu um pouco e ordenou: — Transmita o comunicado aos irmãos Gotuzo e Hermes. Pretendíamos retomar a instrutiva conversação, mas, em se fazendo novo silêncio, outro ajudante, de fisionomia visívelmente alterada, surgiu à porta para informar: — Irmã Zenóbia, a Nota do Dia, vinda do Plano Superior, manda comunicar-lhe que os desintegradores etéricos passarão por aqui amanhã. — Oh! o fogo?!... — replicou a diretora, patenteando agora inexcedível emoção. — Bem o suspeitei — ponderou, acrescentando: — o nosso ambiente está conturbado. E, fixando os olhos penetrantes no colaborador, prosseguiu: — Solicitemos a cooperação das congêneres mais próximas. Precisamos apelar para o Oratório de Anatilde e para a Fundação Cristo. Afastando-se o assessor, Zenóbia voltou-se para nós, cheia de bondade: — Segundo observam, meus amigos, desta vez devo levantar-me e agir. Dirigindo-se, particularmente, a Jerônimo, acentuou: — Meu irmão, já que o inesperado me surpreende, estimaria visitar o abismo, ainda hoje, em companhia dos amigos. — De perfeito acordo — respondeu nosso chefe, atenciosamente. Depois de levar a efeito alguns sinais de chamada, a diretora da Casa Transitória de Fabiano confiou-nos ao cuidado de Heráclio, abnegado cooperador da instituição, e se afastou. Fomos, então, convidados pelo novo amigo a visitar o interior e, em breve, apresentava-nos extensos dormitórios e estreitos cubículos, em que se localizavam doentes e necessitados de vários matizes.
Atravessamos, igualmente, compridas salas de estudo e complicados laboratórios, notando-se que ali todo o espaço era rigorosamente aproveitado. — É tipo de construção para movimento aéreo. E, sorrindo: — Por isso, é denominada “Casa Transitória”. [40 - capítulo IV]
A diferença de atmosfera, entre o dia e a noite, na Casa Transitória de Fabiano, era quase imperceptível.
Não conseguiria estabelecer comparações apreciáveis, mesmo porque, durante todo o tempo de nossa permanência no instituto, estiveram acesas as luzes artificiais.
Denso nevoeiro abafava a paisagem, sob o céu de chumbo e, ao que fui informado, grandes aparelhos destinados à fabricação de ar puro funcionavam incessantemente, na casa, renovando o ambiente geral.
Cotejando a situação com os quadros primaveris da Crosta Planetária, os ocasos da esfera carnal parecem verdadeiras decorações do paraíso.
Congregavam-se aí longos precipícios infernais e vastíssimas zonas de purgatório das almas culpadas e arrependidas. Mais tarde, vim a saber que o instituto asila constantemente variados grupos de entidades, repletas de característicos humanos primitivistas, mas portadoras de virtudes e valores apreciáveis, que colaboram na execução das tarefas gerais e se educam ao mesmo tempo, preparando-se para reencarnaçoes e experiências de mais elevada expressão. [40 - páginas 79/80]
Dirigindo-se, então, a grande número de companheiros e subordinados de serviço, a Irmã Zenóbia consolidou a atenção de todos para o desempenho do mapa de trabalhos que havia planejado para tão significativa noite.
A casa deveria permanecer atenta à contribuição que receberia dos institutos congêneres, no dia imediato, pela manhã alguns servidores seguiram para a Crosta, prestando apoio à expedição Fabrino, nalguns casos difíceis de reencarnação compulsória; certos departamentos abrir-se-iam à visitação dos encarnados parcialmente libertos da Crosta, em momentos de sono físico, para receberem benefícios magnéticos, de conformidade com as solicitações autorizadas; determinadas dependências seriam preparadas devidamente para a eventual recepção de missionários do bem, procedentes das esferas elevadas; organizar-se-iam leitos para alguns desencarnados prestes a serem trazidos, segundo notificação anteriormente recebida; duas enfermeiras, orientadoras de colônias espirituais para regeneração, trariam vinte crianças recém-libertas dos laços carnais, no sentido de se avistarem com as mães que viriam da Crosta, amparadas por amigos para reencontro confortador, em caráter temporário; variadas delegações de trabalho espiritual, junto a instituições piedosas, encontrar-se-iam no abrigo para combinar providências; duas novas missões de socorro alcançariam o asilo, dentro de breves horas, e demorar-se-iam até pela manhã, conforme aviso prévio; todos os trabalhos preparatórios da mudança assinalada para o dia seguinte deveriam ser levados a efeito; medidas outras de menor significação foram recomendadas e, por fim, a diretora notificou que o recinto de orações deveria aguardá-la, em posição de iniciar a prece de reconhecimento da noite, sem nenhuma delonga. [40 - página 82]
Caravana da Casa Transitória de Fabiano às zonas de Espíritos sofredores.
Prosseguindo a marcha, penetramos escarpada região e, atendendo ao sinal da Irmã Zenóbia, os vinte auxiliares que nos seguiam postaram-se em determinado ponto, com a recomendação de nos aguardarem a volta. A diretora da Casa Transitória, então, conduziu-nos os quatro, caminho a dentro, acentuando que encetaríamos isoladamente a primeira parte do programa de serviço. Em semelhante paragem, a atmosfera rarefazia-se de maneira sensível. A Lua pareceu menos rubra, a relva mais doce, o ar mais tranqüilo.
Logo após, evidenciando preocupação em sossegar-nos o íntimo, referentemente aos sofredores anônimos que encontráramos no caminho, explicou-nos delicadamente:
Debalde libertamo-los, periodicamente, dos monstros que os escravizam, organizando-lhes refúgio salutar. Fogem de nossa influenciação retificadora e tornam espontâneamente ao charco. É imprescindível que o sofrimento lhes solidifique a vontade, para as abençoadas lutas do porvir. [40 - páginas 85/6]
A caminho do asilo de Fabiano, atravessada a região estratosférica, a ionosfera surgia-nos à vista, apresentando enorme diferença, por causa do afluxo intenso dos raios cósmicos em combinação com as emanações lunares. (Ver: Partícula de Higgs) [40 - páginas 195]
As considerações eram sumamente interessantes para mim, em tal conjuntura, apesar de já não ser leigo no conhecimento da aplicação de energia elétrica, na colônia espiritual em que eu mantinha residência. As palavras de Hipólito tinham a virtude de aliviar-me o cérebro atulhado ainda de reminiscências viciosas da Crosta. O estimado amigo, não obstante reconhecer a leveza da substância etérica, em comparação com os fluidos grosseiros que constituem os corpos_terrenos, chamou-me a atenção para o esforço hercúleo dos trabalhadores que articulavam diversos serviços atinentes à próxima modificação. A tarefa exigia decisão e boa vontade, assombrando o ânimo mais forte. A utilização de recursos, ali, naquela casa de benemerência, insulada em tão escura paisagem, custava inauditos sacrifícios.
A densidade da região influía inequivocamente nos serviços, e os colaboradores despendiam atividades de gigantescas proporções.
Certo, Jerônimo estaria informado quanto às providências necessárias; entretanto, dentro de minha ignorância, não contive a interrogação:
O prestimoso Assistente não permitiu que o interpelado me respondesse. Adiantou-se, ele mesmo, e informou:
O esclarecimento era bastante significativo; e silenciei, satisfeito, compreendendo, mais uma vez, a grandeza da purificação consciencial, em lugar dos protestos verbalísticos que se fazem através dos jogos brilhantes da palavra.
Entregávamo-nos, tranquilos, ao trabalho, quando indescritível choque atmosférico abalou o escuro céu.
Clarão de terrível beleza varou o nevoeiro de alto a baixo, oferecendo, por um instante, assombroso espetáculo.
Observava-se, ali, o contrário: a tormenta de fogo ia começar, metódica e mecanicamente.
A distância de muitos quilômetros, víamos os clarões da fogueira ateada pelas faíscas elétricas na desolada região. Decorridos alguns minutos, chegaram novos reforços para a guarda. Todos os servos do bem, em trânsito na Casa Transitória, foram chamados a cooperar na vigilância. O assessor que os distribuia, em variados setores do serviço, esclareceu que o instituto socorrista deveria partir dentro de quatro horas, e que, nesse tempo, em circunstâncias como aquelas, seria grande o número de infortunados a procurar-lhe as portas, acentuando que não se dispunha de colaboradores em quantidade suficiente para atender às tarefas do átrio. Antes de maiores explicações, ribombou novo trovão nas alturas. O fogo riscou em diversas direções, muito longe ainda, como a notificar-nos de sua aproximação gradativa.
Dessa vez, todavia, recebi a nítida impressão de que a descarga elétrica não se detivera na superfície.
Penetrara a substância sob nossos pés, porque espantoso rumor se fêz sentir nas profundezas.
Jerônimo, experiente e bondoso, tentava sossegar-me o coração. Todavia, embora soubesse que não nos encontrávamos, ainda, diante da tormenta de forças caóticas desencadeadas sem rumo, confesso que sentia enorme dificuldade para desincumbir-me das obrigações assumidas, em virtude da minha absoluta despreocupação do que ocorria fora do ambiente de serviço. Desde aquele segundo estampido atordoante do firmamento, a Casa Transitória de Fabiano entrou em fase anormal de trabalho. Servidores, embora sob impecável articulação, iam e vinham, apressados. Lá dentro, cogitava-se das derradeiras medidas, com valioso aproveitamento dos minutos.
Aparelhos de comunicação funcionavam em ritmo acelerado, anunciando o fato, em direções várias, avisando peregrinos da espiritualidade superior, a fim de não se aproximarem da zona sob regime de limpeza.
Ameaçavam-nos outros:
E não se limitavam às palavras. Avançavam, em massa, sobre as faixas horizontais, para recuarem, espavoridos.
Entretanto, com maior ou menor intensidade, todos os sofredores exibiam escuros círculos de treva em torno de si. Um deles atingiu-nos o círculo de atividade e identifiquei-o. Não havia qualquer dúvida.
Era o verdugo que me provocara tanta revolta íntima na véspera.
Dele se aproximou Luciana, quanto pôde. Fixou-o bem, fêz significativo gesto e exclamou, espantada, embora discreta:
Ia dizer mais alguma coisa. Bastou, entretanto, um olhar do Assistente que nos dirigia, para que ela se calasse, humilde, reintegrando-se no trabalho complexo que tínhamos em mão. Dilatavam-se fogueiras enormes em direções diversas e raios fulgurantes eram metodicamente despejados do céu. Vasta dose de paciência era despendida por todos nós, para conter a multidão furiosa. Impressionavam-nos as formas monstruosas e miseráveis a se arrastarem vestidas de sombra, quando começaram a chegar entidades aureoladas de luz. Trajavam farrapos e traziam comovedores sinais de sofrimento. Dando a perceber que desejavam isolar a mente das centenas de revoltados que ali se congregavam em ativo movimento de insurreição, contemplavam o Alto e cantavam hinos de reverência ao Senhor, em regozijo da própria renovação, cânticos esses abafados pela algaravia dos rebeldes agitados.
Reparava, pela expressão de quantos iluminados se aproximavam de nós, que se esforçavam por manter o pensamento alheio às objurgatórias dos maus, temendo talvez o interesse mental pelo que emitiam, circunstância criadora de novos laços magnéticos favoráveis à dominação dos verdugos.
Intentavam, por isso, alimentar o máximo desprendimento dos apodos que lhes eram lançados pela turba malévola e impenitente. Formavam agrupamentos de formosura singular. Sublimes quadros de paraíso, no inferno de atrozes padecimentos! Vinham, de mãos entrelaçadas, como a permutar energias, a fim de que se lhes aumentasse a força para a salvação, no minuto supremo da batalha que mantinham, talvez, desde muito antes. E esse processo de troca instintiva dos valores magnéticos infundia-lhes prodigiosa renovação de poder, porqüanto levitavam, sobrepondo-se ao desvairado ajuntamento.
Emolduravam-lhes a fronte belos círculos de luz, com brilho mais ou menos uniforme.
Enquanto os tipos de semblante sinistro lhes dirigiam insultos, elas cantavam hosanas ao Cristo, entoando louvores, que, de certo, lembravam os júbilos dos primeiros cristãos, persegui-dos e flagelados nos circos, quando se retiravam sob os apupos de espectadores perversos.
Entretanto, para alcançarem o átrio da instituição, eram compelidas à quebra da corrente de energias magnéticas recíprocas, mantendo-se de mãos separadas, e os recém-chegados, em sua maioria, desvencilhando-se, involuntariamente uns dos outros, tombavam enfraquecidos após prolongado esforço, logo aos primeiros passos na região interna da Casa Transitória.
Semelhavam-se, assim, às aves esgotadas em laboriosa excursão, depois de atingirem o objetivo que as fizera afrontar distâncias e tormentas.
Entre os ingratos e rebelados, havia, contudo, criaturas que se mostravam, aflitas e, genuflexas, tocavam-nos o coração fraterno com seus brados de socorro e amargurosas queixas, as quais, porém, não podíamos aliviar com qualquer beneficio precipitado, em virtude da perigosa condição mental em que se mantinham, condição que lhes impunha sofrimentos reparadores.
E, agora, a paisagem era mais sufocante, mais terrível... Com franqueza, de minha parte aguardava, ansioso, o sinal de regresso ao interior, tal a impressão desagradável de que me sentia possuído.
Fitas inflamadas do firmamento caíam, caíam sempre, em meio de formidáveis explosões, oriundas da desintegração de princípios etêricos... Quando tudo fazia supor que não havia, nas vizinhanças, entidades em condições de serem socorridas, soou a clarinada equivalente ao toque de recolher. Enfim! suspirei, aliviado. Consoante instruções recebidas, abandonamos os aparelhos electromagnéticos da defensiva, em funcionamento indiscriminado, e afastamo-nos apressadamente. Sorvedouros de chamas surgiam próximos e tamanha gritaria se verificava, em derredor, que tínhamos perante os olhos perfeita imagem de vasta floresta incendiada, a desalojar feras e monstros de furnas desconhecidas.
Atravessamos o pórtico do asilo seguidos de todos os companheiros que ainda se conservavam no exterior.
Lá fora, espessos bandos de entidades perversas tentavam ainda romper os obstáculos, invadindo-nos o abrigo prestes a partir.
Era forçoso considerar que dentro do asilo reinava absoluta ordem, não obstante o ritmo apressado do trabalho. Acomodações simples, mas confortadoras, recebiam sofredores extenuados. E serena como sempre, como se estivesse habituada às perturbaçües externas, a irmã Zenóbia controlava a situação, ultimando providências. Todas as portas de acesso fácil ao interior foram hermeticamente cerradas. Logo após, a orientadora chamou-nos à vasta sala consagrada à oração e esclareceu que a Casa Transitória, para movimentar-se com êxito, não necessitava apenas de forças elétricas, baseadas em simples fenômenos da matéria diferenciada, mas, também, de nossas emissões magnético-mentais, que atuariam como reforço no impulso inicial de subida. Zenóbia fora breve, dadas as circunstâncias do momento. Mantinhamo-nos todos em ansiosa expectativa, concentrados na câmara da prece, com exceção dos companheiros que se achavam em serviço de assistência imediata aos recolhidos das últimas horas e de quantos se conservavam de sentinela, junto à maquinaria em funcionamento.... A leitura do Salmo ia em meio, quando o Instituto, qual vigorosa embarcação aérea, princípiou a elevar-se.
... Eminentemente comovido, observei que a Casa Transitória, deslocada vagarosamente de início, punha-se agora em movimento rápido. A atitude recolhida de Zenóbia, em oração vigilante, compelia-nos a sustentar o mesmo tono vibratório ambiencial.
Reparava, porém, que a instituição socorrista subia sempre.
... Em breve, porém, após haurir lições que jamais esquecerei, reparamos que a Casa Transitória descia suavemente. [40 - capítulo X] |
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