página acima: Após a morte
Consciências que dormitam após a morte
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Crianças e Adolescentes
DESAPARECIDOS
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____As consciências que dormitam, após_a_morte, quais múmias espirituais, a mente estacionária na deserção da Lei, durante o repouso habitual em que se imobiliza, além do túmulo, sofre angustiosos pesadelos, despertando quase sempre em plena alienação, que pode persistir por muito tempo, cultivando apaixonadamente as impressões em que julga encontrar a própria felicidade.

  • Muitas dessas almas desorientadas por fim se entediam do mal e procuram a regeneração por si mesmas, ao passo que outras, em nossas tarefas de assistência, acordam para as novas responsabilidades que lhes competem no próprio reajuste. São os soldados feridos buscando corresponder às missões de amor que lhes visitam o pouso de restauração. Entendem o impositivo da luta dignificante a que foram chamados e, ajudando aos que os ajudam, regressam_ao_bom_combate, em cujas linhas se acomodam com o serviço que lhes é possível desempenhar.
  • Outras, porém, recalcitrantes e inconformadas, são docemente constrangidas_ao_retorno_à_batalha para que se desvencilhem da prostração a que se recolheram. A experiência no corpo_de_carne, em posição difícil, é semelhante a um choque de longa duração, em que a alma é convidada a restabelecer-se. Para isso, tomamos o concurso de afeições do interessado que o asilam no templo familiar.

[28a - página 236] - André Luiz - 1954

Espírito, que_se_manifestou_logo_após_a_morte.

____Isso ocorreu por haver ele ficado perto do local onde se deu a morte e por ainda não teve repouso depois de haver sido arrancado ao corpo, vítima de acidente; em seu caso, o repouso é motivo para o progresso, pois é preciso que a pobre alma repouse e não se conserve fascinada no meio vicioso onde dissipou a vida, do contrário ficaria muito tempo presa à Terra.

[108 - páginas 189] - Médium: William Stainton Moses - (1839 - 1892)

____I CORINTIOS [15]

  • 33 Não vos enganeis. As más companhias corrompem os bons costumes.
  • 34 Acordai para a justiça e não pequeis mais; porque alguns ainda não têm conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa.
  • 35 Mas alguém dirá: Como_ressuscitam_os_mortos? e com que qualidade de corpo vêm? (Ver: Perispírito)
  • 36 Insensato! o que tu semeias não é vivificado, se primeiro não morrer.
  • 37 E, quando semeias, não semeias o corpo que há de nascer, mas o simples grão, como o de trigo, ou o de outra qualquer semente.
  • 38 Mas Deus lhe dá um corpo como lhe aprouve, e a cada uma das sementes um corpo próprio.
  • 39 Nem toda carne é uma mesma carne; mas uma é a carne dos homens, outra a carne dos animais, outra a das aves e outra a dos peixes.
  • 40 Também há corpos_celestes e corpos_terrestres, mas uma é a glória dos celestes e outra a dos terrestres.
  • 41 Uma é a glória do sol, outra a glória da lua e outra a glória das estrelas; porque uma estrela difere em glória de outra estrela.
  • 42 Assim também é a ressurreição, é ressuscitado em incorrupção.
  • 43 Semeia-se em ignomínia, é ressuscitado em glória. Semeia-se em fraqueza, é ressuscitado em poder.
  • 44 Semeia-se corpo_animal, é ressuscitado corpo_espiritual. Se há corpo animal, há também corpo espiritual.
  • 45 Assim também está escrito: O primeiro homem, Adão, tornou-se alma vivente; o último Adão, espírito vivificante.
  • 46 Mas não é primeiro o espiritual, senão o animal; depois o espiritual.
  • 47 O primeiro homem, sendo da terra, é terreno; o segundo homem é do céu.
  • 48 Qual o terreno, tais também os terrenos; e, qual o celestial, tais também os celestiais.
  • 49 E, assim como trouxemos a imagem do terreno, traremos também a imagem do celestial.
  • 50 Mas digo isto, irmãos, que carne e sangue não podem herdar o reino de Deus; nem a corrupção herda a incorrupção.

  • 51 Eis aqui vos digo um mistério: Nem_todos_dormiremos mas todos seremos transformados,

  • 52 num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados.
  • 53 Porque é necessário que isto_que_é_corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade.
  • 54 Mas, quando isto que é corruptível se revestir da incorruptibilidade, e isto que é mortal se revestir da imortalidade, então se cumprirá a palavra que está escrito: Tragada foi a morte na vitória.
  • 55 Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?
  • 56 O aguilhão da morte é o pecado, e a força do pecado é a lei.
  • 57 Mas graça a Deus que nos dá a vitória por nosso Senhor Jesus Cristo.
  • 58 Portanto, meus amados irmãos, sede firmes e constantes, sempre abundantes na obra do Senhor, sabendo que o vosso trabalho não é vão no Senhor.

Paulo de Tarso

"Em verdade, em verdade vos digo, a hora vem, e ela já veio, em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e aqueles que ouvirão, viverão; porque como o Pai tem a vida em si mesmo, também deu ao Filho ter a vida nele mesmo, – e lhe deu o poder de julgar, porque é o Filho do homem. "

(São João, cap. V, v. 22 a 27.)

____O plano impressivo da mente grava as imagens dos preconceitos e dogmas_religiosos com singular consistência. A transformação compulsória, pelo decesso, reintegrará a criatura no patrimônio de suas faculdades_superiores. O trabalho, porém, não pode ser brusco, sob pena de ocasionar desastres emocionais de graves consequências. Urge considerar a necessidade da medida, isto é, da gradação.
____Há, contudo, observação valiosa a destacar. Como vemos, não é a rotulagem externa que socorre o crente nas supremas horas evolutivas. É justamente a sementeira do esforço próprio, nos serviços da sabedoria_e_do_amor, que frutifica, no instante oportuno, ...

  • através de providências intercessórias
  • Ou de compensações espontâneas da lei que manda entregar as respostas do Céu “a cada um por suas obras”.

____Todo lugar do Universo, portanto, pode ser convertido em santuário de luz eterna, desde que a execução dos Divinos Desígnios seja a alegria de nossa própria vontade.

[40 - páginas 197] - André Luiz

Os que dormem

____Seguimos através de longas filas de arvoredo acolhedor, rumo às vastas edificações que obedeciam a linhas arquitetônicas singulares.
____Sem que eu pudesse explicar o fenômeno, as luzes diminuíam progressivamente. Que teria acontecido? Vicente e eu nos entreolhamos, assustados. Alfredo, Aniceto e os demais, todavia, caminhavam sem surpresa. A serenidade deles tranqüilizava-me o íntimo, embora o espanto insofreável.
____Mais alguns passos, atingimos os pavilhões diferentes, que se estendiam em área superior a três quilômetros, pelos meus cálculos. Lá dentro, contudo, as sombras se fizeram mais densas. Conseguia distinguir, vagamente, os quadros interiores, observando que se tratava, a meu ver, de espaçosas enfermarias com teto sólido, mas semi-abertas ao longo das paredes altas, dando livre passagem ao ar.
____Dezenas de operários, devotados e operosos, seguiam-nos em absoluto silêncio.
____Alfredo era o único a falar, notando-se, contudo, que se fizera extremamente discreto nas palavras.
____Tudo isso me dava a impressão de haver penetrado um cemitério escuro, onde os visitantes fossem obrigados a guardar todo o respeito aos mortos.
____Com estranheza, notei que um dos servidores entregara ao chefe do Posto pequenina máquina, que Alfredo nos deu a conhecer gentilmente, explicando:
____— Este é o nosso aparelho de sinalização luminosa. Estamos no centro dos pavilhões a que se recolhem irmãos ainda adormecidos. Temos aqui, presentemente, quase dois mil.
____Os numerosos cooperadores dirigiam-se em ardente para a zona de serviços que lhes competiam.
____Depois de pequena pausa, falou o administrador com firmeza:
____— Iniciemos o trabalho de assistência.
____Ao primeiro sinal luminoso de Alfredo, acenderam-se numerosas lâmpadas elétricas e, então, dominando, a custo, a primeira impressão de horror, vi extensas filas de leitos ao rés-do-chão, ocupados todos por pessoas mergulhadas em profundo sono.

  • Muitos tinham o semblante horrendo.
  • Eram muito poucos os que traziam as pálpebras cerradas, parecendo tranqüilos.
  • Em quase todos, estampavam-se-lhes nos olhos, aparentemente vitrificados, o extremo pavor e o doloroso desespero da morte.
  • Cadavérica palidez cobrialhes a face.

____Recordando a literatura antiga, pensei nos velhos túmulos egípcios.

  • Tínhamos, diante de nós, centenas de múmias perfeitas.
  • Raríssimos pareciam dormir um sono natural.

____Aproximando-se de nós outros, Alfredo falou a Aniceto, em particular:
____— Infelizmente, não podemos atender a todos.
____— Estamos aguardando pessoal adestrado. Tenho aqui a colaboração de oitenta auxiliares para este gênero de serviço; entretanto, não pode cada qual atender a mais de cinco doentes de uma só vez. À vista disso, dos nossos mil novecentos e oitenta abrigados, separei os quatrocentos mais suscetíveis de próximo despertar, a fim de submetê-los ao tratamento intensivo.
____— Os demais recebem alimento e medicação mais densos uma vez por dia.
____Profundamente tocado pelo que via, inclinei-me instintivamente para o abrigado mais próximo, tentando examinar-lhe o estado fisiológico. Identifiquei o calor orgânico, a pulsação regular e os movimentos respiratórios, embora verificasse a extrema rigidez dos membros, como que mergulhados em imobilidade cataléptica.
____Indescritível impressão apoderou-se de mim. Levantei-me assustado, dirigi-me a Aniceto com a máxima discrição, e interroguei:
____— Explicai-me, por Deus! que vemos aqui? Estamos, acaso, na moradia da morte, depois da morte?
____O instrutor sorriu, complacente, e explicou em voz quase imperceptível:
____— Sim, André, este sono é, verdadeiramente, avançada imagem da morte.

  • Aqui permanecem, com a bênção do abrigo, alguns milhões dos nossos irmãos que ainda dormem.
  • São as criaturas que nunca se entregaram ao bem ativo e renovador, em torno de si, e mormente os que acreditaram convictamente na morte, como sendo o nada, o fim de tudo, o sono eterno.

____A crença na vida superior é atividade incessante das almas. A ferrugem ataca a enxada ociosa. O entorpecimento invade o Espírito vazio de ideal criador.

  • Os que, nos círculos canais, homens e mulheres, crêem na vida eterna, ainda que não sejam fundamentalmente cristãos, estão desenvolvendo faculdades de movimentação espiritual e podem penetrar as esferas extraterrenas em estado animador, pelo menos quanto a locomoção e juízo mais ou menos exato.
  • No entanto, as criaturas que perseveram em negação deliberada e absoluta, não obstante, por vezes, filiadas a cultos externos de atividade religiosa, que nada vêem além da carne nem de sejam qualquer conhecimento espiritual, são verdadeiramente infelizes.

____Muitos penetram nossas regiões de serviço, como embriões de vida, na colméia da Natureza sempre divina. Um amigo nosso costuma designá-los por fetos da espiritualidade; entretanto, a meu ver, seriam felizes se estivessem nessa condição inicial. Temos a certeza, porém, de que muitos se negaram ao contacto da fé, absolutamente por indiferença criminosa aos desígnios do Eterno Pai.

  • Dormem, porque estão magnetizados pelas próprias concepções negativistas
  • permanecem paralíticos, porque preferiram a rigidez ao entendimento
  • mas dia virá em que deverão levantar-se e pagar os débitos contraídos.

____Eis porque os considero sofredores. Primeiramente, demoram no sono em que acreditaram, mais tarde acordam; porém, a maioria não pode fugir à enfermidade e à perturbação, como acontece aos irmãos dementados, que vimos inda há pouco.
____Grande o meu assombro. Como Vicente se aproximasse, também, para ouvi-lo, falou Aniceto, esclarecendo a nós ambos:
____— A fé sincera é ginástica do Espírito. Quem não a exercitar de algum modo, na Terra, preferindo deliberadamente a negação injustificável, encontrarse-á mais tarde sem movimento. Semelhantes criaturas necessitam de sono, de profundo repouso, até que despertem para o exame das responsabilidades que a vida traduz.
____Com exceção de algumas senhoras que permaneciam junto de Ismália, todos os servidores se mantinham em posição de vigilância, ao pé dos grupos mumificados. A luz artificial iluminava os leitos, que se perdiam de vista, mas observei que nenhum dos albergados reagia à intensa claridade que se fizera. Continuavam rígidos, cadavéricos, prostrados.
____Notei, então, que Alfredo começou a mover o aparelho de sinalização, para emitir as ordens de serviço. Cada sinal determinava operação diferente.
____Vi os servidores do Posto distribuírem pequenas porções de alimento líquido e medicação bucal, em profundo silêncio. Em seguida, forneceram reduzidas quantidades de água efluviada aos infelizes, com exceção, porém, de muitos que pareciam preparados a receber, tão somente, caldo e remédio. Dois terços dos quatrocentos abrigados em tratamento receberam passes_magnéticos. Alguns poucos receberam aplicações do sopro_curador.
____Todos os movimentos do trabalho eram transmitidos pela sinalização luminosa, partida das mãos do administrador, que parecia interessado na manutenção do máximo silêncio. Impressionado com o que via, perguntei ao orientador, em voz baixa, a razão de alguns enfermos não terem sido beneficiados com a água e com o socorro de forças novas, através do passe e do sopro vivificante.
____Aniceto, todo bondade, inclinou-se aos meus ouvidos, com a ternura de um pai ansioso por tranqüilizar o filhinho inquieto, e falou:
____— Cada um na vida, meu caro André, tem a necessidade que lhe é peculiar. Aqui, compreendemos com amplitude esse imperativo da Natureza.

[103 - Capítulo 22] - André Luiz

Pesadelos

____Nosso instrutor conduziu-nos aos leitos distantes, onde se asilavam os enfermos desatendidos quanto ao auxílio magnético.
____Acompanhamo-lo, curiosos, identificando as expressões isoladas, dolorosas ou terríveis, daquelas máscaras mortuárias.
____Quando nos encontrávamos a regular distância da zona central, o instrutor esclareceu, em tom grave:
____Indicando os doentes imóveis, acrescentou:

  • Todos os que dormem nestes pavilhões permanecem dentro do mau sono.
  • Temos também, nas zonas espirituais, os que dormem em bom sono, na esfera de nossas atividades os que repousam períodos curtos, quais trabalhadores retos que esperam o repouso noturno a tranqüilidade dos que sabem trabalhar e descansar, de consciência aliviada.
  • Mas esses não precisam estacionar, como filhos da sombra, nas construções de emergência de um Posto de Socorro.
  • Quem dorme em desequilíbrio, entrega-se a pesadelos. Todos estes irmãos desventurados que nos cercam, aparentemente mortos, são presas de horríveis visões íntimas. Vejamos o aproveitamento de vocês. Procedamos a observações rápidas. Antigamente, o inquérito anatômico, o exame das vísceras, a perquirição científica nas células, também aparentemente mortas; agora, a auscultação profunda da alma, a sondagem dos sentimentos a visão do plano mental.

[103 - páginas 124/125] - André Luiz

(Ver: Fantasmas da avareza)

Prece de Ismália

____“Temos, ao nosso lado, Senhor, ...

  • infortunadas mães que não souberam descobrir o sentido sublime da fé, resvalando, imprudentemente, nos despenhadeiros da indiferença criminosa
  • pais que não conseguiram ultrapassar a materialidade no curso da existência humana, incapazes de ver a formosa missão que lhes confiastes
  • cônjuges desventurados pela incompreensão de vossas leis augustas e generosas
  • jovens que se entregaram, de corpo e alma aos alvitres da ilusão!...
  • Muitos deles, atolaram-se no pantanal do crime, agravando destinos dolorosos!

____Agora dormem, Pai, à espera de vossos desígnios santos. Sabemos, contudo, Senhor, que este sono não traduz repouso do pensamento. Quase todos os nossos asilados são vítimas de terríveis pesadelos, por terem olvidado, no mundo material, os vossos mandamentos de amor_e_sabedoria. Sob a imobilidade aparente. movimenta-se-lhes o Espírito, entre aflições angustiosas que, por vezes, não podemos sondar.

  • Perdoe-os, Pai, vossos filhos transviados e nossos companheiros de luta, necessitados de vossa mão paternal para o caminho!
  • Quase todos se desviaram da senda reta, pelas sugestões da ignorância que, como aranha gigantesca, tece os fios da miséria, enredando destinos e corações!
  • Deprecando vossa misericórdia para eles, rogamos, para nós, a verdadeira noção da fraternidade universal!
  • Ensinai-nos a transpor as fronteiras de separação para que vejamos em cada enfermo o irmão necessitado do nosso entendimento!
  • Ajudai-nos a com preensão, a fim de que venhamos a perder todo impulso de acusação nas estradas da vida!
  • Ensinai-nos a amar como Senhor nos amou!
  • Também nós, Senhor, que aqui vos rogamos, fomos leprosos espirituais, cegos do entendimento, paralíticos da vontade, filhos pródigos do vosso amor!...
  • Também nós dormimos, em tempos idos, nos Postos de Socorro da vossa misericórdia!...
  • Somos simples devedores, ansiosos de resgatar imensos débitos!
  • Sabemos que vossa bondade nunca falha e esperamos contemplar a bênção de vida e luz!. .."

[103 - páginas 131/132] - André Luiz

Pavor da Morte - Um caso de necessidade do sono reparador

____O colega, gentil, conduziu-nos ao interior de espaçoso necrotério, onde defrontamos um quadro interessante. O cadáver de uma jovem, de menos de trinta anos, ali jazia gelado e rígido, tendo a seu lado uma entidade masculina, em atitude de zelo. Com assombro, notei que a desencarnada estava tinida aos despojos. Parecia recolhida a si mesma, sob forte expressão de terror. Cerrava as pálpebras, deliberadamente, receosa de olhar em torno.
____— Terminou o processo de desligamento_dos_laços_fisiológicos — aclamou o facultativo atento — mas a pobrezinha há seis horas que está dominada por terrível pavor.
____E apontando o cavalheiro desencarnado, que permanecia junto dela, cuidadoso, o receitista esclareceu:
____— Aquele é o noivo que a espera, há muito.
____Aproximamo-nos um tanto e ouvimo-lo exclamar carinhosamente:
____— Cremilda! Cremilda! vem! abandona as vestes_rotas. Fiz tudo para que não sofresse mais... Nossa casa te aguarda, cheia de amor e luz!...
____A jovem, todavia, cerrava os olhos, demonstrando não querer vê-lo. Notava-se, perfeitamente, que seu organismo_espiritual permanecia totalmente desligado do vaso_físico, mas a pobrezinha continuava estendida, copiando a posição cadavérica, tomada de infinito horror.
____Aniceto, que tudo pareceu compreender num abrir e fechar de olhos, fez leve sinal ao rapaz desencarnado, que se aproximou comovido.
____É preciso atendê-la doutro modo — disse o nosso orientador, resoluto — vejo que a pobrezinha não dormiu no desprendimento e mostra-se amedrontada por falta de preparação espiritual. Não convém que o amigo se apresente a ela já, já... Não obstante o amor que lhe consagra, ela não poderia revê-lo sem terrível comoção, neste instante em que a mente lhe flutua sem rumo...
____— Sim — considerou ele, tristemente —, há seis horas chamo-a sem cessar, intensificando-lhe o terror.
____Redargüiu Aniceto, conselheiral:
____Ausência de preparação religiosa, meu irmão. Ela dormirá, porém, e, tão logo consiga repouso, entregá-la-ei aos seus cuidados. Por enquanto, conserve a alguma distância.
____E fazendo-se acompanhar do facultativo, que assistira espiritualmente a jovem nos últimos dias, aproximou-se da recém-desencarnada falando com inflexão paternal:
____— Vamos, Cremilda, ao novo tratamento.
____Ouvindo a moça abriu os olhos espantadiços e exclamou:
____— Ah, doutor, graças a Deus! que pesadelo horrível! Sentia-me no reino dos mortos, ouvindo meu noivo, falecido há anos, chamar-me para a Eternidade!...
____— Não há morte, minha filha! — objetou Aniceto, afetuoso — creia na vida, na vida eterna, profunda, vitoriosa!
____— é o senhor o novo médico? — indagou, confortada.
____— Sim, fui chamado para aplicar-lhe alguns recursos em bases magnéticas. Torna-se indispensável que durma e descanse.
____— é verdade... — tornou ela de modo comovente —, estou muito cansada, necessitando de repouso...
____Recomendou-nos o instrutor, em voz baixa, prestássemos auxílio, em atitude íntima de oração, e, depois de conservar-se em silêncio por instantes ministrou-lhe o passe reconfortador. A jovem dormiu quase imediatamente.
____Deslocou-a Aniceto, afastando-a dos despojos, com o zelo amoroso dum pai, e, chamando o noivo reconhecido, entregou-a carinhosamente.
____— Agora, poderá encaminhá-la, meu irmão.
____O rapaz agradeceu com lágrimas de júbilo e vi-o retirar-se de semblante iluminado, utilizando a volitação, a carregar consigo o fardo suave do seu amor.
____Nosso mentor fixou um gesto expressivo e falou:
____— Pela bondade natural do coração e pelo espontâneo cultivo da virtude, não precisará ela de provas purgatoriais.

  • é de lamentar, contudo, não se tivesse preparado na educação religiosa dos pensamentos.
  • Em breve, porém, ter-se-á adaptado à vida nova.
  • Os bons não encontram obstáculos insuperáveis.

____E, desejoso talvez de consubstanciar a síntese da lição, rematou:
____— Como vêem, a ideia da morte não serve para aliviar, curar ou edificar verdadeiramente. É necessário difundir a ideia da vida vitoriosa. Aliás, o Evangelho já nos ensina, há muitos séculos, que Deus não é Deus de mortos, e, sim, o Pai das criaturas que vivem para sempre.

[103 - páginas 250/252] - André Luiz

____Se há uma unanimidade nos 500 testemunhos_post-mortem, sem dúvida, é esta: praticamente todos mencionaram um sono...

  • profundo,
  • compulsivo,
  • irresistível,
  • pesado,
  • suave,
  • arrasador..., no limiar da Vida Nova.
  • Carlos Alberto Andrade Santoro tinha 20 anos quando faleceu de acidente aviatório. Fazia, então, o curso de piloto civil e iniciaria o da Faculdade de Ciências e Letras de Votuporanga, cidade do interior de São Paulo, onde residia. No mesmo acidente, sucumbiu Denizard Vidigal, seu instrutor de pilotagem. Enviou ele uma carta a seus pais, na noite de 11 de março de 1977, em Uberaba, cinco anos após a sua desencarnação. Há dados impressionantes nessa mensagem:
    • Eu sabia que esse “nunca mais” se referia ao corpo e não a mim, o espírito imortal que sobreviveria ao desastre, mas, ainda assim, o gosto do adeus é por demais amargo para que a gente o sinta sem chorar (...)
      ____Chorei, dentro de uma imobilidade que eu não saberia descreve, e, em seguida, notei que mãos de enfermagem me anestesiavam. Era o sono, o sono da bênção, porque, entre a morte do corpo e o renascimento na Vida Espiritual, Deus colocou um desmaio providencial. Quando acordei, me vi sem qualquer ligação com nosso amigo Denizard e com a nossa gente amiga de Votuporanga.

____ Às vezes, esse sono, desmaio ou torpor, é agitado por pesadelos. Vejamos alguns depoimentos a respeito.

  • Yolanda Carolina GiglioVilela, conhecida como Landa, era formada em Letras e exercia o magistério; cultivava a música e a poesia, interessava-se pelos assuntos espirituais, mantendo o coração sempre livre de todo rancor. Aos 27 anos, desencarnou em acidente automobilístico.

Vejamos um trecho de suas notícias enviadas a seus pais e ao seu irmão caçula, quando estes visitavam o médium_Chico_Xavir, em Uberaba-MG (15/10/76): [livro:"A Vida Triunfa" caso 13; livro: "Enxugando Lágrimas" - p.19]

  • Um choque difícil de descrever e, depois aquela ideia de que o desmaio era natural e inevitável, um sono agitado por pesadelos, porque a gente não se despede do corpo,...

    • sem desatar muitos laços
    • e nem se desliga com muita facilidade do ambiente querido em que se nos desenvolveu a experiência familiar.

____Pelos depoimentos, ficamos sabendo também que este sono do limiar da Vida Nova está relacionado com a revisão panorâmica da existência. Vejamos:

    • Nestor Macedo Filho, mais conhecido como Nestorzinho, era estudante do 2º ano da Faculdade de Medicina, de Mogi das Cruzes, quando foi colhido por uma imensa tragédia. No dia 1º/11/79, na estrada que liga São José dos Campos a Ilha Bela, no interior de São Paulo, um caminhão basculante, que trafegava na contramão, em alta velocidade, bateu frontalmente contra o veículo que dirigia. No acidente, faleceram também sua mãe Ivanir, sua avó Julieta e seus irmãos, Sâmadar e Gustavo. Apenas sua noiva, Elisa Helena, conseguiu se salvar, após suportar extensos cuidados médicos. Em questão de segundos, seu pai, Nestor Macedo, corretor de imóveis em Ribeirao Preto, perdeu a família inteira.
      ____Cinco meses depois, Nestorzinho voltou dessa tragédia, através do lápis_mediúnico, enviando a primeira mensagem em 09/4/80 e a segunda, em 14/5/80. Nelas, confessa-se edificado com o exemplo de seu amado pai, que resistiu estoicamente a tão dolorosa prova, um verdadeiro herói que acatou a vontade divina, embora trouxesse o coração dilacerado pela dor e pela saudade.

____Nestorzinho ressalta:[livro: "Eles Voltaram" - pp. 109 a 132. A 2ª mensagem também pode ser vista na "Folha Espírita" (agosto de 81)]

  • Num_lance_veloz_de_tempo_revi_toda_a_minha_vida curta de rapaz e em seguida me arrojei num sono pesado de que só despertaria dias depois, afim de me conscientizar quanto ao total da verdade, ciente de que me achava em uma organização hospitalar, quanto ao meu caso. Vim a me informar depois que a mãezinha, a vó Julieta e os queridos irmãos se encontravam em setor diferente.

____Outras vezes, esse sono pode estar eívado de sonhos e devaneios, que...

    • podem ser reais, resultantes de visitas que o desencarnado faz, com o corpo sutil,
    • ou sonhos mesmo.

    Vejamos depoimentos que relatam uma mescla desses estados:

    • Carlos Alberto da Silva Lourenço, o Tato, filho único, aluno do 1º ano de Engenharia Mecânica da Faculdade de Engenharia Industrial de São Bernardo do Campo, era um jovem estudioso, afável, amigo de todos. Falava fluentemente o inglês e era um dos colaboradores da Instituição Braille de Santos, onde lecionava para os cegos, anonimamente, sem mesmo o conhecimento de seus pais. Pouco depois de completar 18 anos, desencarnou subitamente, durante um jogo, na quadra de basquete da Faculdade, em conseqüência da ruptura se um aneurisma cerebral. Quatro meses depois, voltou, trazendo provas irrefutáveis pela psicografia. Eis um trecho: [Livro: "Jovens no Além" - p. 81]
      • Ouvi os companheiros de bola gritando por mim (...) Alguém se ajoelhava, procurando meu corpo para massagens, no entanto, escutava os chamamentos de carinho e sentia várias mãos em meu peito, mas a voz morrera na garganta e chorei (...) Chorei passando a um sono que me pareceu vir de uma injeção de anestésicos. Entãodomi muito, mas sonhei que fui ao encontro da nossa casa e do nosso caro dr Marins, caminhando livre, mas desorientado pela praia do Embaré e ao longo de outras praias, como se eu fosse feito de um material muito leve e flutuante, a transferir-me de um lugar para outro conforme a minha vontade. Em seguida, apaguei-me e nada senti senão repouso sem nenhuma recordação.
      • Mais tarde, vim a saber por meu avô e por antigo e querido professor padre, que conheci no Colégio Santista e reencontrei aqui, que me achava de pensamento liberto, num estado diferente que as definições do mundo ainda não podem apreender.

____Há também os que não dormem imediatamente.

  • Ramiro Viana tinha notícia do sono arrasador típico do limiar da morte, através da comunicação de diversos amigos que o precederam e que enviaram notícias pelo médium_Chico_Xavier, mas, no seu próprio caso, estranhou o fato de sentir cansaço, mas nenhuma inclinação para dormir.[Livro: "Tempo e Amor" - p. 27]


____O filho, que o recepcionou no limiar do mundo espiritual, esclareceu-o sobre o fato. Ramiro relata na mesma mensagem:

  • o repouso viria depois, de vez que os meus dias longos de doença me haviam preparado uma certa consciência da própria libertação da experiência física.


____Só depois de rever os amigos da vida espiritual, de ter chorado de alegria, havia, finalmente, encontrado o sono dos desencarnados.

____São centenas de exemplos, como esses. Para cada Espírito, porém, o sono tem um significado diferente.

  • Irmão Jacob (Fred Pigner), em Voltei - cap. 9, narra sua própria experiência:
    • (...) não tive a impressão de dormir, qual o fazia no corpo de carne. Permanecera sob curiosa posição psíquica, em que jornadeara longe, contemplando pessoas e paisagens diversas. Supunha, assim, não ter estado num sono propriamente dito.

____Em seguida, transmite ele as oportunas explicações do irmão Andrade sobre o assunto:

    • Inicia enfatizando que o repouso para os desencarnados varia ao infinito.
    • Ficamos sabendo também que o Espírito demasiadamente ligadoaos interesses humanos, tem necessidade de amplo mergulho na inconsciência, quase total, depois_da_morte. Essa é a posição dos seres mais primitivos, os que estão despreparados para a vida no Além.
    • Os criminosos e viciados de toda sorte também não se adaptam às indagações de natureza elevada e têm necessidade do torpor quase absoluto.Finda a batalha terrena, entram em período de sono pacífico ou de pesadelo torturado(...). Esse período varia, de acordo com a probabilidade de reerguimento moral ou de maiores quedas por parte desses espíritos.
    • O instrutor Andrade chamou esse período de hibernação da consciência.Depois dele, os desencarnados podem...
      • voltar_à_carne, ou
      • permanecer em educandários, (Ver: Intermissão)
      • nos círculos inferiores, para colaborarem dentro de suas possibilidades.
    • Com o Espírito de evolução média, dá-se maior lucidez nas esferas do além-túmulo, e tanto maior será quanto mais e melhor procurar atender aos desígnios divinos, durante a experiência material.
    • Assim, quanto mais evoluído é o Espírito, menos descansa após a morte física. Seu grau de conscientização é maior, por isso existem almas que se transferem para regiões mais altas da Espiritualidade, após_a_morte_física, sem necessidade de passar pelo repouso tonificante.

____Em Os_Mensageiros, André Luiz escreve sobre pavilhões inteiros com espíritos que dormem profundamente, após a morte, por anos a fio. Somente em Campos da Paz, Posto de Socorro da região umbralina, existem cerca de 2.000 deles, em sono profundo.São as criaturas que nunca se entregaram ao bem ativo e renovador(...) os que acreditaram convictamente na morte, como sendo o nada, o fim de tudo, o sono eterno.
(Ver: Amor e Conhecimento)
____Todos os que dormem às vezes, por decênios, entregam-se a pesadelos, a horríveis visões intimas.

Do livro: "Nossa Vida no Além" - Marlene Nobre - páginas 55 a 59

JOÃO [5]

  • 26 Pois assim como o Pai tem vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter vida em si mesmo
  • 27 e deu-lhe autoridade para julgar, porque é o Filho do homem.
  • 28 Não vos admireis disso, porque vem a hora em que todos os que estão nos sepulcros ouvirão a sua voz e sairão:
  • 29
    • Os que tiverem feito o bem, para a ressurreição da vida,
    • e os que tiverem praticado o mal, para a ressurreição do juízo.

ATOS [24]

  • 14 Mas confesso-te isto: que, seguindo o caminho a que eles chamam seita, assim sirvo ao Deus de nossos pais, crendo tudo quanto está escrito na lei e nos profetas.
  • 15 Tendo esperança em Deus, como estes mesmos também esperam, de que há de haver ressurreição ...

    • tanto dos justos
    • como dos injustos.
  • 16 Por isso procuro sempre ter uma consciência sem ofensas diante de Deus e dos homens.

Capítulo 27 - O TRABALHO, ENFIM - do livro " NOSSO LAR "

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(Exemplo de necessidade do sono reparador)

Tobias: Instrutor de André Luiz

____Nunca poderia imaginar o quadro que se desenhava agora aos meus olhos. Não era bem o hospital de sangue, nem o instituto de tratamento normal da saúde orgânica. Era uma série de câmaras vastas, ligadas entre si e repletas de verdadeiros despojos humanos.
____Singular vozerio pairava no ar. Gemidos, soluços, frases dolorosas pronunciadas a esmo... Rostos escaveirados, mãos esqueléticas, facies monstruosas deixavam transparecer terrível miséria espiritual.
____Tão angustiosas foram minhas primeiras impressões que procurei os recursos da prece para não fraquejar.
____Tobias, imperturbável, chamou velha servidora, que acudiu atenciosamente:
____- Vejo poucos auxiliares - disse admirado -, que aconteceu?
____- o Ministro Flácus - esclareceu a velhinha em tom respeitoso - determinou que a maioria acompanhasse os Samaritanos (1) para os serviços de hoje, nas regiões do Umbral.
____- Há que multiplicar energias - tornou ele sereno -, não temos tempo a perder.
____- Irmão Tobias!... Irmão Tobias!... por caridade! - gritou um ancião, gesticulando, agarrado ao leito, à maneira de louco - estou a sufocar! Isto é mil vezes pior que a morte na Terra... Socorro! socorro! quero sair, sair!. . . quero ar, muito ar!
____Tobias aproximou-se, examinou-o com atenção e perguntou:
____- Por que teria o Ribeiro piorado tanto?
____- Experimentou uma crise de grandes proporções - explicou a serva - e o Assistente Gonçalves esclareceu que a carga de pensamentos sombrios, emitidos pelos parentes encarnados, era a causa fundamental desse agravo de perturbação. Visto achar-se ainda muito fraco e sem ter acumulado força mental suficiente para desprender-se dos laços mais fortes do mundo, o pobre não tem resistido, como seria de desejar.
____Enquanto o generoso Tobias acariciava a fronte do enfermo, a serviçal prosseguia esclarecendo:
____- Hoje, muito cedo, ele se ausentou sem consentimento nosso, a correr desabaladamente. Gritava que lhe exigiam a presença no lar, que não podia esquecer a esposa e os filhos chorosos; que era crueldade retê-lo aqui, distante do lar. Lourenço e Hermes esforçaram-se por fazê-lo voltar ao leito, mas foi impossível. Deliberei, então, aplicar alguns passes de prostração. Subtrai-lhe as forças e a motilidade, em benefício dele mesmo.
____- Fez muito bem - acentuou Tobias, pensativo -, vou pedir providências contra a atitude da família. É preciso que ela receba maior bagagem de preocupações, para que nos deixe o Ribeiro em paz.
____Fixei o doente procurando identificar-lhe a expressão íntima, verificando a legítima expressão de um dementado. Ele chamara Tobias como a criança que conhece o benfeitor, mas acusava profundo alheamento de quanto se dizia a seu respeito.
____Notando-me a admiração, o novo orientador explicou:
____- O pobrezinho permanece na fase de pesadelo, em que a alma pouco mais vê e ouve que as aflições próprias. O homem, meu caro, encontra na vida real o que amontoou para si mesmo. Nosso Ribeiro deixou-se empolgar por numerosas ilusões.
____Eu quis indagar da origem dos seus padecimentos, conhecer-lhes a procedência e o histórico da situação; entretanto, recordei as criteriosas ponderações da mãe de Lísias, relativas à curiosidade, e calei. Tobias dirigiu ao enfermo generosas palavras de otimismo e esperança. Prometeu que iria providenciar recurso a melhoras, que mantivesse calma em benefício próprio e que não se aborrecesse por estar preso à cama. Ribeiro, muito trêmulo, rosto ceráceo, esboçou um sorriso muito triste e agradeceu com lágrimas.
____Seguimos através de numerosas filas de camas bem cuidadas, sentindo a desagradável exalação ambiente, oriunda, como vim a saber mais tarde, das emanações_mentais dos que ali se congregavam,...

  • com as dolorosas impressões da morte física e,
  • muita vez, sob o império de baixos pensamentos.

____- Reservam-se estas câmaras - explicou o companheiro bondosamente - apenas a entidades de natureza masculina.
____- Tobias! Tobias... Estou morrendo à fome e sede! - bradava um estagiário.
____- Socorro, irmão!... - gritava outro.
____- Por amor de Deus!... Não suporto mais!... - exclamava ainda outro.
____Coração alanceado ante o sofrimento de tantas criaturas, não contive a interrogação penosa:
____- Meu amigo, como é triste a reunião de tantos sofredores e torturados! Por que este quadro angustioso?
____Tobias respondeu sem se perturbar:
____- Não devemos observar aqui somente dor e desolação. Lembre, meu irmão, que estes doentes estão atendidos, que já se retiraram do Umbral, onde tantas armadilhas aguardam os imprevidentes, descuidosos de si mesmos. Nestes pavilhões, pelo menos, já se preparam para o serviço regenerador. Quanto às lágrimas que vertem, recordemos que devem a si mesmos esses padecimentos. A vida do homem estará centralizada onde centralize ele o próprio coração.
____E depois de uma pausa, em que parecia surdo a tantos clamores, acentuou:
____- São contrabandistas na vida eterna.
____- Como assim? - atalhei, interessado.
____O interlocutor sorriu e respondeu em voz firme:
____- Acreditavam que as mercadorias propriamente terrestres teriam o mesmo valor nos planos do Espírito. Supunham que o prazer criminoso, o poder do dinheiro, a revolta contra a lei e a imposição dos caprichos atravessariam as fronteiras do túmulo e vigorariam aqui também, oferecendo-lhes ensejos a disparates novos. Foram negociantes imprevidentes. Esqueceram de cambiar as posses materiais em créditos espirituais. Não aprenderam as mais simples operações de câmbio no mundo. Quando iam a Londres, trocavam contos de réis por libras esterlinas; entretanto, nem com a certeza matemática da morte carnal se animaram a adquirir os valores da espiritualidade. Agora... que fazer? Temos os milionários das sensações físicas transformados em mendigos da alma.
____Realíssimo!Tobias não podia ser mais lógico.
____Meu novo instrutor, após distribuir conforto e esclarecimento a granel, conduziu-me a vasta câmara anexa, em forma de grande enfermaria, notificando:
____- Vejamos alguns dos infelizes semimortos.
____Narcisa, a servidora, acompanhava-nos, solícita. Abriu-se a porta e quase cambaleei ante a surpresa angustiosa. Trinta e dois homens de semblante patibular permaneciam inertes em leitos muito baixos, evidenciando apenas leves movimentos de respiração.
____Fazendo gesto significativo com o indicador, Tobias esclareceu:
____- Estes sofredores padecem um sono mais pesado que outros de nossos irmãos ignorantes. Chamamos-lhes crentes negativos. Ao invés de aceitarem o Senhor, eram vassalos intransigentes do egoísmo; ao invés de crerem na vida, no movimento, no trabalho, admitiam somente o nada, a imobilidade e a vitória do crime. Converteram a experiência humana em constante preparação para um grande sono e, como não tinham qualquer ideia do bem, a serviço da coletividade, não há outro recurso senão dormirem longos anos, em pesadelos sinistros.
____Não conseguia externar meu espanto.
____Muito cuidadoso, Tobias começou a aplicar passes de fortalecimento, sob meus olhos atônitos. Finda a operação nos dois primeiros, começaram ambos a expelir negra substância pela boca, espécie de vômito escuro e viscoso, com terríveis emanações cadavéricas.
____- São fluidos venenosos que segregam - explicou Tobias, muito calmo.
____Narcisa fazia o possível por atender prontamente à tarefa de limpeza, mas debalde. Grande numero deles deixava escapar a mesma substância negra e fétida. Foi então, que, instintivamente, me agarrei aos petrechos de higiene e lancei-me ao trabalho com ardor.
____A servidora parecia contente com o auxílio humilde do novo irmão, ao passo que Tobias me dispensava olhares satisfeitos e agradecidos.
____O serviço continuou por todo o dia, custando-me abençoado suor, e nenhum amigo do mundo poderia avaliar a alegria sublime do médico que recomeçava a educação de si mesmo, na enfermagem rudimentar.

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(1) Organização de Espíritos benfeitores em "Nosso Lar". - (Nota do Autor espiritual.)

[32 - Capítulo 27] - André Luiz

Ver também:

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