Manifestações espirituais entre vivos
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Crianças e Adolescentes
DESAPARECIDOS
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COMUNICAÇÃO MEDIÚNICA ENTRE VIVOS

____Se bem, no presente resumo, eu tenha tido que me limitar a discorrer sobre uma só das sete categorias em que classifiquei os fenômenos em questão , os poucos episódios analisados foram suficientes para demonstrar que as comunicações mediúnicas entre vivos constituem a fundamental base fenomênica das pesquisas metapsíquicas, uma vez que somente por meio de tais comunicações se chega a penetrar na gênese da fenomenologia_supranormal, visto que assim se fica em condições de considerar a um tempo a causa e o efeito, o agente e o percipiente do fenômeno que se tenta investigar.
____Do nosso ponto de vista, observarei, antes de tudo, que só com o auxílio das manifestações dos vivos se adquire a certeza científica da existência de uma personalidade_integral_subconsciente, capaz de entrar em relação com outras personalidades integrais de vivos,...

____Duas condições de fato, estas, indispensáveis à demonstração científica da existência_e_sobrevivência_da_alma, donde decorre uma confirmação ulterior da tese aqui considerada, que o Animismo prova o Espiritismo.
____Acresce que, por lei de analogia, as manifestações mediúnicas dos vivos concorrem a ministrar a prova indireta, mas igualmente eficaz, da autenticidade das manifestações_mediúnicas_dos_defuntos, visto que,...

  • se com as primeiras se obtém a certeza científica de que, então, nos achamos diante de autênticas personalidades de vivos e não diante de efêmeras personificações sonambúlicas,
  • em sentido idêntico se deve concluir com referência às manifestações mediúnicas dos defuntos que provem a sua identidade, prestando informações pessoais cientificamente apropriadas a esse fim.

____Não ignoro que a tais conclusões ainda se poderia opor uma única objeção, segundo a qual, mesmo que as conversações mediúnicas entre vivos se produzam em forma de conversação entre duas personalidades integrais subconscientes, não ficaria excluído que os médiuns possam tomar, a pessoas distantes, sob esta ultima forma, os dados que forneçam em nome dos pseudo-espíritos de defuntos.

  • A semelhante objeção respondo fazendo ver que, antes de tudo, cumpre se tenha em conta a grande lei da relação psíquica e dentro de cujos postulados é impossível se estabeleçam relações de tal natureza com pessoas distantes que o médium e as pessoas presentes desconheçam. Isto bastaria para eliminar esta última objeção, com respeito à classe mais importante dos casos de identificação espirítica.
  • Em segundo lugar, acrescento que, se a objeção em apreço tivesse fundamento, então o automatismo_psicográfico – desde que é automático – deveria escrever inevitavelmente as respostas obtidas das personalidades informantes, de vivos conservados à distância, como acontecia nas experiências de William Stead. Nesse caso, surgiria a forma dialogada da conversação mediúnica havida e se obteria assim a prova da invasão real das comunicações entre vivos, nos supostos casos de identificação espirítica. Mas, como tal fato nunca na prática se deu, ou seja, como nunca se verificou que “na outra extremidade do fio” estivesse uma personalidade integral de vivo a fornecer ostensivamente informações relativas a terceiras pessoas defuntas, segue-se que esta última circunstância de fato exclui a objeção que estamos examinando.

____Assim sendo, forçoso se torna deduzir que, uma vez demonstrado pelos fatos que não existem diferenças de manifestação mediúnica entre os casos de identificação pessoal dos defuntos e os casos de identificação pessoal dos vivos, o que se segue logicamente é que,...

  • se de uma parte se afirma provada experimentalmente a autenticidade das manifestações dos vivos,
  • de outra parte, também se tem que considerar provada cientificamente a autenticidade das manifestações dos defuntos.

____Noutros termos: repito mais uma vez que a questão essencial, do nosso ponto de vista, consiste em que a característica de uma conversação entre duas personalidades_espirituais se revela fundamental em ambas as categorias de manifestações aqui consideradas. Desse modo,...

  • se a característica de que se trata corresponde a um fato cientificamente comprovado nas manifestações dos vivos,
  • não é possível se deixe de concluir que também corresponde a um fato igualmente real e comprovado com relação às manifestações dos defuntos, sempre, porém, bem entendido, sob a condição de que, em ambos os casos, as informações ministradas a título de identificação pessoal sejam cientificamente apropriadas ao objetivado fim.

____O que fica exposto torna quase supérfluo ponderar que tudo isso equivale a afirmar que, cientificamente falando, deve-se excluir, de maneira categórica, a possibilidade teórica de explicar-se, por meio da clarividência telepática a confinar na telemnesia, os casos em que os defuntos que se comunicam fornecem informações pessoais que todos ignoram e com exclusão de objetos_psicometrizados.

  • Essa possibilidade teórica deve ser afastada pela razão de que não existem manifestações supranormais de natureza análoga que a confirmem, ao passo que existem numerosas manifestações do mesmo gênero que a contradizem
  • também deve ser excluída por se mostrar inconciliável com as modalidades sob as quais se produzem as manifestações em causa
  • enfim, deve ainda ser excluída porque se mostra igualmente inconciliável com a lei imprescindível da relação psíquica. Tanto basta para a demolição de qualquer hipótese.

____Em virtude das comunicações mediúnicas entre vivos, chega-se a uma quarta importantíssima conclusão teórica, demonstrativa da existência e da sobrevivência_do_espírito_humano, conclusão que, conjugada a outras já formuladas, concorre para formar um formidável conjunto de dados científicos concretos, que confirmam, de diversos pontos de vista, um postulado fundamental em metapsíquica. Esse postulado é que o Animismo e o Espiritismo são complementares um do outro, porquanto esses dois fatores têm por base única o espírito_humano que,...

____E tanto é certo isto que, se se pretender excluir um ou outro dos dois fatores que constituem a questão a resolver-se, impossível se torna explicar o conjunto dos fatos.

[111 - páginas 114 / 117] - Ernesto Bozzano

____A propósito, assinalo que o arquiteto e arqueólogo Bligh Bond pondera que, nos casos de tal natureza, “o indivíduo que escreve não se acha presente na plena consciência de si, que presente apenas está uma fração da sua personalidade, a qual se manifesta por meio do elemento onírico subconsciente”. Ora, esta é também a hipótese de Myers e é a única que se concilia com os fatos, porquanto ajuda a explicar os erros e as falhas que com freqüência se notam assim nas comunicações dos vivos, como nas dos defuntos.
____Atente-se, contudo, em que, no caso vertente, o comunicante não cometeu o erro de crer-se defunto, como sucedeu a Górdon Davis.
____Quanto à questão de um vivo em condições de vigília manifestar-se mediunicamente à distância, viu-se que Bligh Bond supõe, a seu turno que, como era noite alta, o vivo que se comunicava e o amigo com quem ele conversava deviam achar-se “ambos sonolentos ao findar a conversação”, o que corresponde às minhas conclusões. Por isso, repito, se assiste razão aos opositores para fazer grande caso do estado de vigília em que se encontrava Górdon Davis, porque, não se conciliando esse pormenor com a sua intervenção real na manifestação mediúnica que se produziu, o mesmo pormenor justificaria as conclusões a que eles chegam, no sentido de que tudo se deve atribuir às faculdades “ oniscientes” da subconsciência; se lhes assiste razão para assumir essa atitude, o fato, nada obstante, é que, do ponto de vista científico, achamo-nos muito mais no direito de observar que o caso Górdon Davis está longe de provar que o vivo que se comunicava se encontrava realmente em condições normais de vigília, sobretudo se se considerar que a análise comparada de numerosos episódios análogos demonstra não haver casos que o provem de maneira cientificamente hábil. O caso aqui referido também não o prova, se atender a que basta um minuto de semi-adormecimento, ou de “ausência psíquica” no vivo, para legitimar a hipótese do êxodo de elementos psíquicos subconscientes, bastante individuados, para representar, à distância, a personalidade do mesmo vivo.

[111 - página 112] - Ernesto Bozzano


"As comunicações mediúnicas entre vivos provam a realidade das comunicações_mediúnicas_com_defuntos"

____é de suprema importância este tema. A grande importância do tema consiste em que os casos de comunicações mediúnicas entre vivos, com o se realizarem por processos idênticos àqueles pelos quais se operam as comunicações mediúnicas com os defuntos, oferece a possibilidade de apreender-se melhor a gênese destas últimas, por projetarem luz nova sobre as causas dos erros, das interferências, das mistificações subconscientes que nelas ocorrem; mas, sobretudo, por contribuírem a provar, com rara eficácia, a realidade das comunicações mediúnicas com defuntos, uma vez se considere que nas comunicações mediúnicas entre vivos é possível verificar-se a realidade integral do fenômeno, interrogando-se as pessoas colocadas “nas duas extremidades do fio”. Daí a sugestiva inferência de que, quando...

  • “no outro extremo do fio” se encontra uma entidade mediúnica que afirme ser um espírito de defunto e o prove ministrando informações pessoais que todos os presentes ignoram, racionalmente se deveria concluir que “na outra ponta do fio” há de estar a entidade do defunto que se declara presente,
  • do mesmo modo que nas comunicações entre vivos se verifica positivamente que “na outra extremidade do fio” se acha o vivo que se manifesta mediunicamente.

____Na minha monografia, eu subdividira em sete categorias os fenômenos das comunicações mediúnicas.

  • Na primeira, considerei os episódios de gêneros inteiramente afins com a “ transmissão_do_pensamento”, salvo a circunstância de se produzirem mediunicamente.
  • Nas outras, considerei sucessivamente...

    • as mensagens inconscientemente transmitidas ao médium por pessoas mergulhadas em sono,
    • as mensagens involuntariamente transmitidas ao médium por pessoas em condições de aparente vigília
    • em seguida, as que foram obtidas por vontade expressa do médium, que a isso chegara pensando intensamente na pessoa distante com quem desejava comunicar-se
    • depois, a transmitida ao médium por vontade expressa de pessoas ausentes
    • a seguir, os casos de transição, em que o vivo que se comunicara era um moribundo
    • finalmente, as mensagens mediúnicas, entre vivos, transmitidas com o auxílio de uma entidade espiritual.

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  • Na primeira categoria, em que se tratava de episódios afins com a “transmissão do pensamento”, salvo a circunstância de se produzirem mediunicamente pela escrita_automática, os episódios referidos me ofereceram ensejo de assinalar que as mistificações_subconscientes, quais se davam nas comunicações_dos_defuntos, ocorriam de maneira idêntica nas comunicações entre vivos e, como nestas últimas possível se tornava indagar-lhes as causas, instrutivo ensinamento resultava daí, a dissipar as dúvidas inerentes às mistificaçõesanálogas nas comunicações dos defuntos.
  • Na segunda categoria, em que foram consideradas as mensagens inconscientemente transmitidas ao médium por pessoas ausentes mergulhadas em sono, tive ocasião de acentuar o valor de uma das maiores aquisições teóricas postas em foco pela minha monografia, isto é, que a característica das comunicações mediúnicas entre vivos consistia no fato de que entre o agente e o percipiente se desenvolviam de ordinário longos diálogos, demonstrativos de que já não se tratava de um fenômeno de transmissão_telepática_do_pensamento, mas de verdadeira conversação entre duas personalidades integrais subconscientes, com as conseqüências teóricas daí decorrentes.
  • Na terceira categoria, em que considerei as mensagens involuntariamente transmitidas ao médiumpor pessoas em condições de aparente vigília, ofereceu-se-me oportunidade de demonstrar a presumível inexistência de tal forma de comunicações mediúnicas entre vivos, por falta de exemplos convenientemente circunstanciados, que valessem para demonstrar que uma pessoa em condições de vigília possa entrar involuntariamente em comunicação mediúnica com um sensitivo distante, ainda que nele não pense. Ponderando-se os resultados efetivos, dever-se-ia, ao contrário, dizer que, para se produzirem episódios semelhantes, seria indispensável, pelo menos, que a pessoa em condições de vigília...

    • caísse em sonolência, por breve espaço de tempo,
    • ou em “sonambulismo vígil”,
    • ou em estado de “ausência psíquica”,
    • ou, ainda, que pensasse mais ou menos vivamente na pessoa distante.
      ____(Ver: Caso de manifestação da Sra. Summers)
      ____
  • Na quarta categoria, em que considerei as mensagens obtidas por expressa vontade do médium, incluí casos revestidos de grande valor teórico, do mesmo passo que a maneira de os interpretar se revestia de eficácia resolutiva, quanto ao modo de se interpretarem os casos de identificação espirítica, fundados em informações fornecidas pelos defuntos que se comunicam, eficácia que ressaltava da circunstância de fornecerem os casos de comunicações mediúnicas entre vivos a mais preciosa das reconfirmações do fato de que as comunicações_mediúnicas_dos_defuntos, longe de consistirem num absurdo processo de seleção das informações pessoais colhidas nas subconsciências dos que conheceram em vida o pretenso defunto que se comunica, consistiam, ao contrário, positivamente, numa verdadeira e legítima conversação com o próprio defunto, visto que,...
    • se isso era o que se dava nas comunicações mediúnicas entre vivos,
    • racionalmente se havia de dar no tocante às comunicações mediúnicas dos defuntos, conclusões estas que anulavam a única objeção de que dispunham os opositores, para não admitirem a interpretação espiritualista das manifestações em apreço.
  • Na quinta categoria, referente às mensagens transmitidas ao médium por expressa vontade de uma pessoa ausente, ressaltava, antes de tudo, a raridade das mensagens dessa natureza, quando, ao contrário, as mesmas mensagens, com caráter de espontaneidade, eram muito freqüentes, nas condições de sono real ou aparente do agente, revelando-se estes últimos mais importantes do que os primeiros, dado que, no caso de mensagem transmitida ao médium por vontade expressa de uma pessoa ausente, se tratava estritamente de um fenômeno de transmissão telepático-mediúnica e, portanto, de uma mensagem pura e simples, que jamais tomava o desenvolvimento de um diálogo, enquanto que, no caso de uma pessoa em sono real ou larvado, as manifestações assumiam com freqüência esse caráter. E, quando o assumiam, isso queria dizer que já não se tratava de um fenômeno de transmissão telepático-mediúnica, mas, sim, de uma vera conversação entre duas personalidades espirituais subconscientes, a menos que se tratasse de uma mensagem de vivo transmitida com o auxílio de uma entidade espiritual.
    ____Como quer que seja, o significado dos casos pertencentes a esta quinta categoria não deixava, a seu turno, de confirmar a hipótese espirítica, pois que,...

    • se a vontade consciente do espírito de um vivo podia atuar, à distância, sobre a mão de um médium_psicógrafo, de modo a ditar-lhe o seu pensamento,
    • nada impedia se inferisse que a vontade consciente de um “espírito desencarnado” chegasse a agir analogamente; que,...

      • se, pelas comunicações mediúnicas entre vivos, nas quais era dado verificar-se a autenticidade dos fenômenos interrogando-se as pessoas colocadas “nos dois extremos do fio”, ficava positivamente demonstrado que a mensagem mediúnica provinha do vivo que, distante, se declarava presente,
      • então, quando “na outra extremidade do fio” se achava uma entidade_mediúnica afirmando ser um espírito de defunto e provando-o por meio de informações pessoais ignoradas dos consulentes e do médium, legítimo teoricamente se tornava inferir-se que “na outra ponta do fio” devia achar-se, com efeito, a entidade do defunto que se declarava presente.
        Noutros termos: para ambas as categorias indicadas se haveria de excluir a hipótese das “personificações subconscientes”, de que tanto se tem abusado até hoje. Nada, pois, de personificações efêmeras de ordem onírico-sonambúlica em relação com as comunicações mediúnicas entre vivos e, em conseqüência, nada também de semelhante em relação às comunicações com entidades de defuntos que forneçam as reclamadas provas de identificação pessoal.
  • Na sexta categoria eu considerava os casos, por sua vez bastante raros, em que a pessoa que se comunicava mediunicamente morrera naquele momento mesmo, ou estava moribunda, casos esses que representavam a senda de transição entre os fenômenos_anímicos e os espirítico, tudo isso considerando que, por se tratar de vivos no leito de morte, ficava patente que a telepatia entre vivos para manifestação mediúnica aparecia, em tais circunstâncias, como o último degrau de uma longa escala de manifestações anímicas, que levava ao limiar da grande fronteira além da qual somente podem haver manifestações telepáticas de defuntos. Demonstrava-se uma vez mais não existir solução de continuidade entre as modalidades sob as quais se produziam as comunicações mediúnicas entre vivos e as dos defuntos.
    Por outras palavras: uma vez mais, era-se conduzido a reconhecer que o Animismo prova o Espiritismo.
  • Finalmente, na sétima categoria, em que se contemplavam as mensagens entre vivos transmitidas com o auxílio de uma entidade espiritual, entrava-se de velas enfunadas no grande oceano das manifestações_transcendentais; chegara-se a demonstrar que a existência de mensagens mediúnicas entre vivos, obtidas por meio de mensagens espirituais, já não podia ser contestada, conhecidas que eram longas séries de experiências que se não podiam explicar...
    • nem pela telepatia,
    • nem pela clarividência telepática,
    • nem pela telemnesia.

____Do ponto de vista, porém, do presente trabalho, no qual tenho de sintetizar os numerosos argumentos especiais que encaminham a conclusões nitidamente afirmativas no tocante à grande verdade aqui considerada, defronto-me com uma dificuldade técnica intransponível: a de que, tratando-se de uma ordem de manifestações cujo profundo significado espiritualista nem sempre é fácil de apreender-se, devido às intrincadas modalidades sob as quais se produzem, não poderei furtar-me a fortalecer todo argumento especial enunciado, citando os casos que o sugerem, sem o que as conclusões gerais perderiam muito da sua eficácia demonstrativa. Mas, isso não é possível e, não o sendo, só me resta relatar um número conveniente de episódios elucidativos, respeitantes à maior das proposições teóricas conseguidas com a análise comparada dos fatos e a convergência das provas, proposição que também pode bastar por si só para robustecer a tese ora considerada: que “as comunicações mediúnicas entre vivos provam a realidade das comunicações_mediúnicas_com_os_defuntos”. Para tal fim, nada melhor do que relatar alguns episódios da longa série obtida, com a sua própria mediunidade, pelo célebre jornalista e escritor espírita William Stead.

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INÍCIO DAS COMUNICAÇÕES MEDIÚNICAS ENTRE VIVOS

____Como é sabido, William Stead possuía, em grau notabilíssimo, a faculdade mediúnica da escrita automática (psicografia), por meio da qual lhe foi ditado o áureo livrinho de revelações transcendentais intitulado: Letters from Julia (Cartas de Júlia). Além disso, chegou sistematicamente a entrar em relação mediúnica e a conversar livremente, à distância, com personalidades vivas, obtendo muito amiúde confissões e informações que as personagens vivas jamais lhe teriam confiado em condições normais. Nunca ele pensara na possibilidade de conversações supranormais de tal natureza e foi a personalidade_mediúnicaJúlia” que lho sugeriu, a título de experimentação. Numa famosa conferência que fez na London Spiritualist Alliance, no ano de 1893, narrou nestes termos como enveredara por essa ordem de pesquisas:

  • “Um dia, escreveu Júlia: “Porque te surpreende que eu possa servir-me_da_tua_mão_para_me_corresponder com uma amiga minha? Qualquer um pode fazê-lo.”
  • – Perguntei-lhe: “Que queres dizer com esse qualquer um?”
  • – Respondeu: “Qualquer um, isto é, qualquer pessoa pode escrever com a tua mão.”
  • – Perguntei mais: “Queres dizer qualquer pessoa viva?”
  • – Ela replicou: “Qualquer amigo teu pode escrever com a tua mão.”
  • – Ao que observei: “Queres dizer que, se eu pusesse a minha mão à disposição dos meus amigos distantes, eles poderiam servir-se dela do mesmo modo pelo qual o fazes?”
  • – Sim; experimenta e verás.
  • – Pareceu-me que ia tomar sobre mim uma árdua tarefa; mas, decidi tentar a experiência. Os resultados foram imediatos e espantosos...

____Coloquei, pois, minha mão às ordens de amigos que residiam em diversos lugares distantes e verifiquei que eles, em sua maioria, estavam em condições de comunicar-se, embora variasse muito a capacidade, que tinham, de fazê-lo.

  • Alguns escreviam de súbito e correntemente, com as suas características de estilo, forma e caligrafia, às primeiras palavras transmitidas, para depois prosseguirem com intermitência, como se escrevessem normalmente uma carta.
  • Confiavam-me seus pensamentos, informavam-me de que tinham a intenção de me vir consultar, ou me contavam como haviam empregado o dia.
  • O que, porém, mais me surpreendia nessas conversações, já de si mesmas surpreendentes, era a inconcebível franqueza com que vários de meus amigos, que eu, estava certo, tão bem lhes conhecia a sensibilidade, a moderação e a reserva, jamais me teriam confiado alguns de seus segredos pessoais, ou alguns de seus embaraços econômicos, me declaravam com a maior franqueza achar-se em dificuldades financeiras, ou me falavam sem reservas de outros vários reveses íntimos.

____Essa circunstância me pareceu tão séria, do ponto de vista social que, um dia, pedi a respeito explicações a Júlia, nestes termos:

  • “Preocupam-me seriamente os resultados que tenho obtido neste novo campo de pesquisas, por se me afigurar que, se os outros fizessem como eu, não haveria mais segredos neste mundo.”
  • – Ela respondeu: “Oh! não. Tu exageras.”
  • – Ao que lhe retruquei: “Então, como se explica que pela minha mão um amigo me revele segredos pessoais que, normalmente, teria o cuidado de me não revelar?”
  • Foi-me dada uma explicação, que não apresento como definitiva, mas unicamente como a explicação de Júlia, escrita com a minha mão, e que, sem dúvida, não é produto da minha subconsciência, visto que ela nunca me passou pela mente. Disse Júlia:
    • “A vossa personalidade real, ou espiritual, jamais confiará a ninguém, por via mediúnica, coisas que se considere no dever de guardar em segredo e, se às vezes confia incidentes mais ou menos íntimos, fá-lo com plena consciência do que faz.
    • A diferença está em que a vossa personalidade real, ou espiritual, pensa e julga de um fato pelo seu valor intrínseco, muito diversamente do modo pelo qual procede a vossa personalidade normal.”
    • – Perguntei: “Que é o que entendes por personalidade real, ou espiritual?”
    • – Respondeu:
      • “A vossa personalidade real, ou espiritual, isso a que chamais o vosso_Eu, vigia e governa tanto a vossa mentalidade consciente, quanto a subconsciente, usando de uma e de outra à sua vontade.

        • A vossa mentalidade consciente se serve das faculdades sensórias para comunicar-se com os seus semelhantes, quando estes se acham ao alcance daquelas faculdades, que, contudo, são muito rudimentares na sua potencialidade.
        • O mesmo já não se dá com relação às faculdades_sensórias_da_mentalidade_subconsciente, que são um instrumento de comunicação muito mais sutil, apurado e eficiente, porque se conservam sempre a serviço da vossa personalidade espiritual que, quando deseja comunicar-se com alguma pessoa distante, se serve da mentalidade subconsciente que, entretanto, nunca se presta ao fim absurdo de revelar a outros aquilo que, verdadeiramente, deva conservar-se em segredo, da mesma maneira que não revelaria normalmente com a língua.
    • Perguntei ainda: “De que modos se realizam tais comunicações?”
    • – Resposta: “Como? Não o compreendes? Os Espíritos de todo o Universo se acham em contacto uns com os outros, de sorte que podes falar com a personalidade espiritual de qualquer pessoa no mundo, sem limites de distância, com a única condição de que a tenhas conhecido pessoalmente. Se podes falar a uma pessoa que encontres, porque já a conheces, também podes conversar com ela, em qualquer parte do mundo onde esteja, convidando-a a escrever com a tua mão.”

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____... Talvez por se achar ainda imperfeitamente desenvolvida a minha mediunidade, o fato é que não consigo entrar em relação com todos os meus amigos e que noto grande diferença no valor intrínseco das suas comunicações.

  • Assim, por exemplo, alguns há que me comunicam coisas de caráter pessoal com extraordinário cuidado, de maneira que, em cem afirmações suas, não surge uma só inexata.
  • Em compensação, outros há que aparentemente se manifestam com suas características pessoais e assinam com seus nomes as comunicações, mas que transmitem informações completamente falsas.

____Nada obstante, a maioria deles demonstra o maior cuidado em transmitir suas notícias; mesmo, porém, nessas circunstâncias, ressalta um fato curioso e é que, se peço – figuremos um caso – a um amigo de Glasgow notícias da sua “inflamação facial”,...

  • ele me responde com escrupulosa exatidão, ou que vai piorando, ou que seus furúnculos se abriram e que tem o rosto coberto com um cataplasma, subscrevendo as mensagens com sua firma.
  • Entretanto, quando me encontro com o amigo em carne e osso e lhe apresento o seu escrito, ele absolutamente não se recorda de haver conversado comigo.

____Pedi a “Júlia” que me elucidasse a esse respeito, formulando nestes termos a minha pergunta:

  • “Como se explica que, quando perguntei ao meu amigo como estava da sua “inflamação facial”, ele me informou do seu estado e não se recorda de se haver comunicado comigo? Desde que a nossa personalidade espiritual nunca transmite informações sem ter plena consciência do que faz, como se explica que os amigos me forneçam informações e depois ignorem que mas deram?”
  • – Ela respondeu: “Quando te diriges mediunicamente a um amigo teu, a sua personalidade espiritual responde por meio das faculdades_mentais_subconscientes, não mais por meio das faculdades conscientes ou cerebrais, e, naturalmente, não cuida de dar a saber à sua mentalidade conscienteou cerebral que ela transmitiu uma informação a quem lha pedira, servindo-se das faculdades mentais subconscientes, uma vez que não é necessário que o faça. Se, porém, julgasse conveniente fazê-lo, então o teu amigo se recordaria.” (Light, 1893, págs. 134-143). ( [0] Da mesma forma deve ocorrer com o comportamento da personalidade espiritual na emancipação da alma, durante o sono) (Ver: Telepatia)

____Estes os trechos essenciais da interessantíssima conferência de William Stead, a cujo propósito faço notar, antes de tudo, que a personalidade_mediúnicaJúlia”, quando informa a Stead que é possível a um médium entrar em relação com um vivo distante, mas unicamente sob a condição de que aquele conheça pessoalmente o outro, nada mais faz do que reforçar a tese que desenvolvi no capítulo precedente, segundo a qual não podem efetuar-se comunicações entre vivos, em falta da relação psíquica, que só se pode estabelecer com pessoas conhecidas do médium ou dos presentes, ou por meio de um objeto psicometrizável.

____Faço, além disso, ressaltar esta outra afirmação de “Júlia”:

  • “Quando te diriges a um amigo distante, a sua personalidade espiritual responde exercendo suas faculdades mentais subconscientes, não as faculdades conscientes ou cerebrais.”

____Ora, nessa afirmação se contém o núcleo substancial da tese que me disponho a desenvolver e segundo a qual as comunicações mediúnicas entre vivos são verdadeiras e reais conversações entre duas personalidades integrais subconscientes, que estabeleceram relação psíquica entre si. É esta uma conclusão teoricamente importantíssima, porque elimina a absurda hipótese na qual se imagina que as faculdades_supranormais_dos_médiuns têm o poder de insinuar-se nas subconsciências de outros para aí selecionar os dados de que necessitem com o nobre escopo de mistificar o próximo.

[111 - páginas 56 / 60] - Ernesto Bozzano CASOS DE COMUNICAÇÕES MEDIÚNICAS ENTRE VIVOS

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