Relato do Espírito Daddy - Um Herético no Paraíso
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Crianças e Adolescentes
DESAPARECIDOS
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____Tiro-o do recente livro de mensagens transcendentais intitulado A Heretic in Heaven. O médium-narrador é o Sr. Ernesto H. Peckham, conhecido pelas suas pesquisas metapsíquicas.
____Desta feita, o Espírito que se comunicava fora, quando vivo, membro do mesmo círculo experimental, em casa do Sr. Peckham. Declarara, no entanto, não desejar que lhe publicassem o nome, para não magoar inutilmente as pessoas de sua família que, seguindo a mais intransigente ortodoxia_católica, não deixariam de protestar, se metessem o nome do parente morto em experiências tidas por diabólicas. Ele, pois, fez que, no tratado que deliberara ditar, o designassem pelo pseudônimo de “ Daddy”. Aconselhou que intitulassem a obra Um Herético no Paraíso, a fim de demonstrar que, tendo sido, quando vivo, um dissidente em matéria de dogmas, se achava num meio espiritual correspondente ao que os ortodoxos jurariam ser o “ paraíso”.
____O Espírito abre o seu tratado com o preâmbulo seguinte, cujo feitio não devera ser jamais esquecido, quando se lêem e discutem mensagens mediúnicas concernentes às modalidades da existência espiritual:

  • “Neste pequeno tratado, proponho-me a te referir alguma coisa da nossa existência espiritual, tão extraordinariamente animada, na qual emergi por intermédio da morte. Infelizmente, a tarefa que desejo executar apresenta dificuldades quase insuperáveis, por isso que a existência supranormal ultrapassa enormemente tudo o que se conhece e experimenta na existência terrena. Por exemplo: se bem me haja conservado, substancialmente, a mesma personagem, vi desenvolverem-se em mim faculdades e potencialidades que me abriram novo campo, imenso, de atividades inimaginadas. Ora, é impossível explicar-te, por meio da terminologia terrestre, em que consistem essas atividades... Tentarei dar uma ideia dessa insuperável dificuldade, fazendo notar que a minha tarefa pode comparar-se à de um homem que fosse obrigado a descrever coisas vistas em termos de coisas ouvidas. A audição é uma impressão bem pobre, comparada com a visão.

    • Como descrever as belezas de uma aurora nos Alpes suíços, com toda a radiosa glória de matizes doiro, recorrendo aos acordes de um instrumento musical?
    • Como poderia eu descrever-te exatamente e de modo apropriado a glória da existência espiritual, empregando a linguagem grosseira e material dos terrícolas?...

____ Passo à transcrição de alguns trechos de comunicações em que o Espírito que se manifesta fala de sua entrada no mundo espiritual:

  • “A maior surpresa que espera um vivo, na crise_da_morte, consiste no fato de ele despertar e se reconhecer morto. Quando procuram fazer-nos compreender que estamos mortos, somos infalivelmente levados a responder: “Impossível! Por que deveria eu me considerar morto, uma vez que me sinto mais vivo do que antes?” Efetivamente, não nos sentimos de modo algum mudados. Tudo o que contribui para formar a existência da nossa individualidade permanece inalterado. Ao mesmo tempo, o meio imediato em que entramos nos parece aquele que nos é familiar (na realidade, fomos nós que inconscientemente o objetivamos pelo pensamento). Assim sendo, não podemos acreditar no maravilhoso fenômeno de estarmos realmente mortos. Estas primeiras impressões podem ser definidas como “a surpresa número um”.
  • Naturalmente, eu, por minha vez, pensava que era assim, quando, pela morte, penetrei no mundo espiritual. Os acessos de soluços, a asma e os outros sintomas bronquiais, que me haviam atormentado no momento da morte, continuavam a afligir-me, quando abri os olhos para a vida espiritual. Como bem se pode ver, assim não era, em realidade. Tratava-se de uma reprodução efêmera dos sofrimentos que experimentara, reprodução oriunda das vivas lembranças que deles me ficaram. Acrescentarei que essas reproduções efêmeras dos males realmente sofridos são uma conseqüência inevitável, geral e mesmo providencial, do nascimento no meio espiritual. No que me concerne, esses sofrimentos não duraram muito; mas, enquanto me senti oprimido pelos sintomas em questão, impossível me era acreditar na minha morte, embora soubesse que tinha de morrer. (Ver: Sofrimento espiritual)
  • Logo depois me sobreveio a surpresa número dois, a mais maravilhosa e mais reconfortante de todas. Foi quando ouvi ao meu lado uma doce voz de mulher, que eu conhecia bem, a me chamar pelo meu nome: “Dicky”. Era minha mãe. Ela morrera havia muitos anos e acorria a me dar as boas-vindas no meio espiritual, chamando-me pelo meu apelido familiar, recordação da minha infância. Sendo eu velho, avô desde muito tempo, via-me, no entanto, acolhido e festejado, em nova morada de minha mãe, que eu tanto amara outrora, mas que – coisa vergonhosa! – quase esquecera depois, em conseqüência dos longos anos decorridos, após a sua morte. Em seguida, outra meiga voz de mulher, que não menos familiar e querida me era, chamou-me pelo nome de “Ricardo”. Era minha mulher, que me precedera de alguns anos na existência espiritual...
  • ... Seguiu-se então prolongado_período_de_profundo_sono. Era o total esquecimento, durante o qual, ao que me disseram, as forças espirituais, graças a leis imutáveis, preparam lentamente o grandioso processo do renascimento_espiritual. Uma vez operado o milagre, sobreveio para mim a hora gloriosa do despertar e, recuperando a consciência, tive a benfazeja certeza de haver efetivamente passado da morte no meio terrestre à vida em a morada espiritual: “a uma vida que é realmente vida”, como diz a Bíblia. E a alegria, a paz, a calma me invadiram e proporcionaram um estado de que nunca suspeitara, a suprema felicidade... (págs. 43-44).
  • ... Levantei-me e olhei ao meu derredor: o panorama que se desdobrava aos meus olhos era de indescritível beleza e parecia prolongar-se ao infinito. Sobre ele um céu maravilhoso se estendia... A paisagem era plana e ondulada, muito semelhante, sob certos pontos de vista, às belezas rurais do meu querido país natal... Porém, o detalhe mais maravilhoso do panorama contemplado consistia nisto: que os objetos afastados não pareciam de modo algum diminuídos em suas proporções, por efeito das distâncias, como sucede no meio terrestre. A perspectiva se apresentava literalmente transformada, E não era tudo, pois que verifiquei então que percebida simultaneamente os objetos por todos os seus lados e não unicamente do lado exposto ao meu olhar, como sucede no mundo dos vivos. Esta faculdade_de_visão amplificada e aperfeiçoada produz efeitos maravilhosos. Quando se observa a superfície exterior de um objeto qualquer, vê-se-lhe o interior, o contorno e, através dele, o que lhe está além, donde resulta que a visão espiritual põe o observador em condições de penetrar integralmente o objeto observado... (página 48).
  • ... Era maravilhoso o meio em que me achava, porém comecei a experimentar uma vaga necessidade de companhia. Desde que esse sentimento nasceu em mim, vi o meio, em meu derredor, se transformar. Pareceu estender-se, renovar-se, tornar-se mais belo do que nunca. Em seguida, vi surgir, de todos os lados, seres espirituais, que me vieram ao encontro com demonstrações de júbilo. Soube, depois, que esse prodígio fora devido ao fato de que o meu vivo desejo tivera por efeito criar a “ relação_psíquica” necessária entre mim e os seres existentes no mesmo plano espiritual, os quais se apressaram a vir ao encontro do recém-chegado...
  • Mas, ainda me sentia ligado ao mundo dos vivos, pelo desejo de saber se o meu velho e grande amigo – aquele por intermédio de quem dito agora este tratado – fora informado de minha morte. Aqui, devo explicar, aos que lerem estas páginas, que o meu amigo e eu caíramos gravemente enfermos ao mesmo tempo, ficando sem notícias um do outro. Minha enfermidade acarretou o meu trespasse; o mesmo não se deu com o meu amigo. Ele sobreviveu, porém eu nada sabia a seu respeito. Enquanto pensava nisto, ouvi uma voz longínqua – que soube em seguida ser a de “ Amicus” –, que assim me falou: “Pensa nele, concentra nele o teu pensamento e o verás.” Atendi imediatamente ao conselho recebido, com este resultado: tive a impressão de que me abismava através do espaço, para me ver, logo depois, cercado de uma espécie de nevoeiro. Quando parei, o nevoeiro se dissipou e eis que tive a visão de meu amigo, em companhia de sua mulher. Passeavam juntos, tranqüilamente, ao longo da praia de uma cidade marítima. Pensei: “Aqui está uma coisa verdadeiramente maravilhosa: estou morto, ele está vivo e, no entanto, vejo-o!” Disse, com força: “Peckham” meu amigo! sabes que morri?” Ele se voltou bruscamente e olhou à volta de si, com uma expressão de grande surpresa. Subitamente, eu me vi de novo cercado pelo nevoeiro. Quando este se dissipou, achei-me outra vez no mundo espiritual. Vim a saber mais tarde que meu amigo, curado de um sério ataque de hemorragia pulmonar, fora com sua mulher para uma estação climática, às bordas do mar, a fim de se restabelecer. Para não se contristar durante a convalescença, ocultaram-lhe a minha morte, de que ele só foi sabedor, pela primeira vez, quando lha comuniquei, do mundo espiritual...” (página 55).

[106 - páginas 84 / 93] - Ernesto Bozzano - (Gênova, 9 de janeiro de 1862 - 24 de junho de 1943)

Ver também:
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