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Desde o século I, surgiram dentro da Igreja movimentos diversos que, a partir da compreensão de uma mesma mensagem Cristã, chegaram a interpretações diferentes e freqüentemente contraditórias sobre a verdadeira doutrina de Cristo. Ao espalhar-se pelo Império Romano, o Cristianismo entrou em contato com povos, costumes e problemas diversificados, que o tornaram necessariamente multiforme quanto à organização, doutrina e culto. Assim, existiam as igrejas aramaicas, sírias, asiáticas e ocidentais, cada qual com suas próprias tradições. As diferenças se acentuaram a partir do século II, quando a mensagem Cristã primitiva se revestiu de formas mais elaboradas e se repartiu em numerosas versões dentro de um mesmo quadro doutrinário fundamental. As fronteiras ideológicas do Cristianismo tornaram-se frágeis e se diluíram em tendências heterogêneas. Estas, ao se afirmarem, criaram uma confrontação inevitável entre as múltiplas interpretações doutrinárias e as várias tradições Cristãs. Como todas as correntes reivindicavam a legitimidade apostólica, tratava-se de definir o que estaria de acordo ou contra a pregação tradicional dos Apóstolos.
Essa confrontação veio a caracterizar a divisão entre elementos ortodoxos e heterodoxos no pensamento cristão elaborado. Face à sua autoridade, as tendências dissidentes passaram a ser qualificadas como falsas e nasceram dois conceitos opostos inexistentes no Cristianismo apostólico:
Do ponto de vista histórico, a ortodoxia triunfou como instituição jurídica e como política moderadora, fundada na primazia da Igreja Romana. Mas, do ponto de vista doutrinário, seu sucesso deveu-se a uma elaboração teológica mais consistente do que as numerosas crenças desorganizadas e freqüentemente incoerentes do desenvolvimento do pensamento cristão. Na verdade, a lógica da ortodoxia se firmou nos elementos fixos da tradição Cristã:
Ao lado disso existiram no Cristianismo antigos elementos provenientes do contato com a cultura helênica, que adicionaram novidades filosóficas ao núcleo doutrinário. As correntes chamadas heréticas teriam se ressentido mais fortemente das influências pagãs, acabando por rejeitar doutrinas definidas pela comunidade eclesiástica majoritária e deteriorando o que se considerava conteúdo específico e original da fé Cristã. A partir do século IV, as lutas teológicas tornaram-se mais complexas e profundas do que nos períodos anteriores, na medida em que o paganismo já não constituía um inimigo comum suficientemente forte para assegurar a coesão doutrinária da Igreja.
O Oriente, de modo particular, mergulhado em séculos de especulação místico-filosófica,
apaixonava-se mais profundamente pelas discussões doutrinárias, dando origem a inúmeras seitas. As igrejas de Alexandria, Cartago e Antioquia chegaram a romper temporariamente com Roma.
Também a Igreja de Constantinopla, sem tradição apostólica, mas fundada na superioridade política, viveu, como nova capital do Império, atritos violentos com a Igreja Romana.
O Cristianismo, forma religiosa capaz de responder às necessidades religiosas da população, tornou-se, concomitantemente, religião oficial e objeto das esperanças humanas. O conhecimento gnóstico mostrava-se cético em relação à ciência e possuía um sentimento de participação direta e íntima na verdade divina, como a união entre o masculino e o feminino.
Buscava-se conhecer não por um esforço reflexivo mas por uma revelação que se constituiria na libertação espiritual da prisão corpóreo-sensível.
Apesar da grande diversidade, podiam-se encontrar em todas as correntes o dualismo de Deus e a ideia de um Salvador. O sentido último do mito gnóstico consistia na narração do destino da alma. Situada primitivamente no mundo celeste e luminoso, ela sofrera uma queda trágica que a atirou na Terra, tornando-a prisioneira de um corpo sensível. A divindade suprema, comovida com a sorte de suas centelhas dominadas pela matéria enviou um Salvador para livrá-las e trazê-las de volta para si. Quando todas as centelhas se reunissem, o mundo terreno ficaria sujeito à sua própria sorte e retornaria ao caos original, pois a matéria era tida como má em si. A redenção propiciada pelo Demiurgo realizava-se no interior de cada alma, na busca da identificação com Deus, e significava, portanto, o conhecimento e compreensão do próprio eu.
Por outro lado, as relação Deus-Cosmo se organizava em antíteses Luz-Treva, Vida-Morte, Alma-Psiquismo, considerando-se a divindade como a negação do mundo. Os fiéis transferiram a esperança messiânica para uma salvação pessoal, buscada através da ascese e do conhecimento profundo de suas próprias almas. A filosofia helênica, por sua vez, incorporou, sem dúvida, noções gnósticas nas heresias Cristãs e teria influenciado a própria ortodoxia.
Nos séculos I e II, o gnosticismo
produziu seitas dentro da cristandade, sobretudo no Egito onde se destacaram líderes como
Carpócrades, Basilides, Isidoro e, de modo especial, Valentim, fundador de uma importante escola em Roma. Acrescentavam-se a isso uma ascese rigorosa para a elevação da alma a Deus, uma vivência comunitária repleta de cerimônias secretas só reveladas aos iniciados e a promessa de um conhecimento superior para a solução absoluta dos problemas humanos. RESUMO EXTRAÍDO DA PUBLICAÇÃO DA ABRIL CULTURAL "AS GRANDES RELIGIÕES " |
