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... O
bispo Irineu(130
- 200 depois de Cristo)
observa, alarmado, que as mulheres, de modo especial,
são atraídas para os grupos hereges. Nossa evidência, então, indica uma correlação patente entre a teoria religiosa e a prática social. 61 Entre os grupos gnósticos e os valentinianos, as mulheres eram consideradas iguais aos homens; algumas eram reverenciadas como profetas; outras agiam como professoras, evangelistas viajantes, curandeiras, padres, talvez até bispos. Essa observação geral não é, entretanto, universalmente aplicável. Ao menos três círculos hereges que mantinham uma imagem masculina de Deus incluíam mulheres que assumiam posições de liderança:
Isso é um desenvolvimento extraordinário, se considerarmos que nos seus primeiros anos o movimento cristão mostrou ter uma abertura extraordinária para a mulher. O próprio Jesus violou a convenção judaica ao falar abertamente com as mulheres, e as incluía entre os seus companheiros. Até mesmo Lucas, no Novo Testamento, conta a resposta de Jesus quando Marta, sua anfitrià, reclama por estar fazendo sozinha todo o trabalho de casa enquanto Maria estava sentada escutando-o: “Não se importa por minha irmã me deixar servindo só? Diga-lhe, então, para ajudar-me.” Mas, em vez de apoiá-la, Jesus repreende Marta por ficar tão ansiosa com isso, e declara que “uma só coisa é necessária: Maria escolheu uma boa parte, que não lhe será tirada”. 62 Dez a vinte anos após a morte de Jesus, certas mulheres tinham posição de liderança em grupos cristãos locais; agiam como profetas, professoras e evangelistas. O professor Wayne Meeks sugere que, na iniciação ao cristianismo, quem presidia o ritual anunciava que “em Cristo (...) não há homens e mulheres”. 63 Paulo cita essas palavras e endossa a atividade de mulheres que reconhece como diáconos e companheiras de trabalho; até cumprimenta uma delas, aparentemente um apóstolo ilustre, em posição mais elevada que a dele no movimento. 64 ... Paulo também exprime ambivalência em relação às implicações práticas da igualdade na humanidade. ... Enquanto Paulo reconhecia as mulheres como iguais “em Cristo” e permitia maior variedade de atividades que as congregações judaicas tradicionais, não conseguia defender sua igualdade em termos políticos e sociais. ... Apesar de tudo isso, e das atividades públicas anteriores das mulheres Cristãs, a maioria das igrejas Cristãs do século II seguiu grande parte da classe média ao se opor à igualdade, cujo principal suporte eram os ricos e os círculos que chamaríamos de boêmios. Em torno do ano 200, a maioria das comunidades Cristãs endossou a pseudocarta de Paulo a Timóteo como sendo canônica, uma carta que enfatiza (e exagera) o elemento antifeminino do ponto de vista de Paulo: “Que a mulher aprenda em silêncio com toda a sujeição. Não permito que a mulher ensine, nem use de autoridade sobre os homens; mas que esteja em silêncio.” 72 Os cristãos ortodoxos também aceitaram as cartas de Paulo aos colossenses e aos efésios, que ordenam as mulheres a serem em tudo sujeitas a seus maridos". 73 Clemente, bispo de Roma, escreve em sua carta à indisciplinada igreja em Corinto que as mulheres devem “permanecer submetidas” 74 a seus maridos.
... O consenso, que excluiu a posição de Clemente, continuou a
dominar grande parte das igrejas Cristãs: cerca de 2 mil anos depois, em
1977, o papa Paulo VI, bispo de Roma,declarou que uma mulher não pode ser padre
“porque nosso Senhor era um homem”!
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