Contexto do Debate

    • Este artigo é uma resposta de Kardec ao Sr. Brasseur, diretor do Centro Industrial, que publicou uma série de artigos no Moniteur de la Toilette (agosto de 1859) propondo uma teoria alternativa sobre o papel dos médiuns.
    • Brasseur solicitou a opinião de Kardec, que responde com sinceridade, deixando aos leitores o julgamento final.

A Questão Central

  • Pergunta fundamental de Brasseur:
    • "Que é um médium?
    • O médium é ativo ou passivo?"

Definição de Kardec

  • Posição oficial de Kardec (do livro Que é o Espiritismo?, pág. 75):
    • Médiuns são pessoas aptas a receber, de maneira patente, a impressão dos Espíritos
    • Servem de intermediários entre o mundo visível e o invisível
  • Kardec considera esta definição perfeitamente clara e não vê motivo para modificá-la.

Teoria do Sr. Brasseur: O "Médium Inerte"

Conceito Proposto

  • Brasseur defende que:
    • O instrumento (caixas, cartões, pranchetas) é o verdadeiro médium
    • A pessoa é apenas acessória
    • Não é necessário que o intermediário seja uma pessoa
    • Basta que o invisível tenha um instrumento qualquer para se manifestar

Argumento de Brasseur

  • Vantagem alegada:
    • Quando a pessoa sustenta o lápis diretamente, mistura seus sentimentos e ideias com as do invisível
      • Resultado: comunicações com interferência
    • Usando caixas, cartões ou pranchetas sob as mãos de duas pessoas, estas não intervêm na manifestação
    • Manifestação seria exclusivamente do invisível
    • Por isso, declara este método superior e preferível

Refutação de Kardec

Argumento 1: Necessidade da Pessoa

  • Kardec responde claramente: NÃO
    • "Não basta que o invisível tenha à sua disposição um instrumento qualquer para se manifestar, pois lhe falta o concurso fluídico de uma pessoa, a qual é para nós o verdadeiro médium."
  • Prova empírica:
    • Se bastasse o instrumento, veríamos cestas e pranchetas escrevendo sozinhas
    • Isso jamais aconteceu
    • Até a escrita direta (aparentemente mais independente) só se produz sob influência de médiuns com aptidão especial

Argumento 2: Inversão Lógica

  • Segundo Brasseur:
    • Instrumento = principal
    • Pessoa = acessória
  • Segundo Kardec:
    • É justamente o contrário
  • Evidência:
    • Por que as pranchetas não se movem com qualquer pessoa?
    • Se é necessário ser dotado de aptidão especial para fazê-las mover-se, o papel da pessoa não é meramente passivo
    • A pessoa é o verdadeiro médium

Argumento 3: O Instrumento é Dispensável

  • Demonstração prática:
    • O instrumento não é mais que um apêndice da mão, do qual podemos nos privar
    • Toda pessoa que escreve por prancheta pode fazê-lo diretamente com a mão, sem prancheta
    • Pode até traçar caracteres com o dedo, sem lápis
    • Mas a prancheta não escreve sem uma pessoa

O Perispírito: Elemento Material Esquecido

  • Brasseur afirma:
    • "Separada da matéria pela dissolução do corpo, a alma não tem mais nenhum elemento físico da humanidade"
  • Kardec corrige:
    • "E que fazeis do perispírito?"
    • O perispírito é o laço que une a alma ao corpo
    • É o envoltório semi-material que a alma possui em vida e conserva após a morte
    • Através desse envoltório ela se mostra nas aparições
    • É também matéria, embora eterizada
    • Pode adquirir propriedades de tangibilidade

Tipos de Médiuns e Suas Características

Médium Mecânico

    • O Espírito age sobre a mão
    • Recebe impulso inteiramente involuntário
    • Desempenha papel do que Brasseur chama "médium inerte"
    • Escreve sem consciência do que produz
    • O ato precede o pensamento
    • É instrumento absolutamente passivo

Médium Intuitivo

  • Processo:
    • O Espírito age sobre o cérebro
    • Transmite movimento ao braço pela corrente do sistema nervoso
    • O pensamento acompanha o ato e por vezes o precede
    • É o pensamento do Espírito que atravessa o cérebro do médium
  • Independência manifesta:
    • Mesmo que por vezes pareça haver confusão, a independência é manifesta quando:
      • O médium escreve coisas que não pode saber
      • Escreve coisas contrárias às suas ideias, sua maneira de ver, suas convicções
      • "Quando ele pensa branco e escreve preto"
    • Há tantos fatos espontâneos e imprevistos que não é possível dúvida
  • Analogia do intérprete:
    • O médium é como um intérprete que:
      • Recebe pensamento estranho
      • Deve compreendê-lo para transmiti-lo
      • Mas não o assimila

Outros Tipos de Mediunidade

Kardec enumera outras formas para demonstrar a amplitude da mediunidade humana:

Médiuns Falantes

    • Recebem impulso sobre os órgãos da palavra
    • Como outros recebem sobre braço ou mão

Médiuns Auditivos

    • Escutam claramente uma voz que lhes fala
    • Ditando o que devem escrever

Médiuns Videntes

    • Os Espíritos se mostram sob a forma que tinham em vida
    • Vêem-nos circular, ir e vir como multidão visível
    • Pergunta retórica: "Isto pode acontecer com um ser que nada mais tem de matéria?"

Médiuns Impressionáveis

    • Sentem toques ocultos
    • Impressão dos dedos e até das unhas
    • Marcas na pele que deixam sinal

Médiuns de Dupla Vista

    • Perfeitamente despertos, em pleno dia
    • Vêem claramente o que se passa à distância
    • É uma faculdade própria, um gênero de mediunidade

Definição Oficial de Mediunidade

  • Kardec cita o Dictionnaire des Dictionnaires français abrégé de Napoléon Landais:
    • "Mediunidade é a faculdade dos médiuns.
    • Os médiuns são pessoas acessíveis à influência dos Espíritos, e que lhes podem servir de intermediários."
  • Kardec considera que esta definição "nos dá a ideia muito exatamente".

Posição sobre os Instrumentos

  • Kardec não contesta a utilidade dos instrumentos:
    • Reconhece que têm vantagem como resultado da experiência
    • Especialmente para pessoas que nada viram ainda
    • São úteis para iniciantes
  • Por que a Sociedade Parisiense não os usa prioritariamente:
    • É constituída de pessoas que não estão mais no início
    • Suas convicções já se formaram
    • Não faz experiências para satisfazer curiosidade do público
    • Estes meios primitivos nada de novo lhes ensinariam
    • Preferem métodos mais expeditos
    • Possuem experiência suficiente para distinguir perfeitamente a natureza das comunicações

Crítica aos Artigos de Brasseur

  • Kardec reconhece:
    • O jornal é redigido com incontestável talento
    • Contém artigos do Sr. Jules de Neuville muito bem escritos
  • Mas aponta uma falha:
    • Não foram precedidos de estudo suficientemente aprofundado da matéria
    • Por isso envolvem muitas questões supérfluas

Conclusão e Posição Final

Classificação Proposta por Kardec

  • De acordo com a Sociedade Espírita:
    • Persistem em considerar as pessoas como verdadeiros médiuns
    • Podem ser passivos ou ativos, segundo natureza e aptidão
    • Se quiserem chamar os instrumentos de "médiuns inertes", é uma distinção que talvez seja útil

Advertência Importante

  • Erro a evitar:
    • Atribuir aos instrumentos o papel e as propriedades dos seres animados nas comunicações inteligentes
    • Distinção necessária: certas manifestações espontâneas são puramente físicas

Síntese do Debate

Este artigo representa um debate metodológico fundamental no Espiritismo nascente:

  • Tese de Brasseur: O instrumento mecânico é o verdadeiro médium; a pessoa é acessória e pode interferir.
  • Antítese de Kardec: A pessoa é o verdadeiro médium; o instrumento é apenas apêndice dispensável que requer o concurso fluídico humano.
  • Argumentos decisivos de Kardec:
    • Empírico: Instrumentos nunca funcionam sozinhos
    • Lógico: Se bastasse o instrumento, funcionaria com qualquer pessoa
    • Prático: Pessoas escrevem sem instrumentos; instrumentos não escrevem sem pessoas
    • Teórico: O perispírito (elemento semi-material) é essencial
    • Fenomenológico: Múltiplas formas de mediunidade (vidente, auditiva, impressionável) não podem ser explicadas por instrumentos inertes
    • Posição conciliatória: Instrumentos têm utilidade pedagógica para iniciantes, mas a ciência espírita séria reconhece a pessoa como o verdadeiro médium.

Resumo da Revista Espírita, Outubro de 1859, título "Médiuns Inertes" - Allan Kardec
Elaborado com auxílio de inteligência artificial
(Claude, Anthropic, 2026
)

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