O Oriente e O Ocidente - Cristianismo
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DESAPARECIDOS
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____No século IV, a distinção entre a massa dos fiéis e o clero, fortemente hierarquizado, encontrava-se bem estabelecida. Em princípio, o povo cristão elegia seus bispos, mas de modo geral essa escolha era orientada pelo clero, sobretudo em Roma ou pelos bispos de uma mesma província ou região. Apesar das constantes disputas entre as várias igrejas ocidentais e orientais, já o Concílio de Nicéia atribuía uma autoridade "supermetropolitas" aos bispados de Roma, Alexandria e Antioquia, os mais vastos e influentes. Com a fundação de Constantinopla, o bispo da nova capital tornou-se dono de um primado de honra, "imediatamente abaixo do bispo de Roma", recebendo o título de "patriarca ecumênico", através do qual detinha a liderança do Oriente, não sem protestos do primaz de Roma. A transferência de residência imperial fortaleceu, na prática, a autoridade do prelado da antiga capital, enquanto em Constantinopla o imperador cerceava a autonomia do bispo local. Por outro lado, a primazia de Roma era devida à própria ideia do Império, na medida em que a tradição gloriosa da velha capital simbolizava o poderio do Estado. Já nos concílios ecumênicos, o bispo romano e seus legados ocupavam o lugar de honra. E, em 378, um decreto imperial confirmava ao prelado de Roma o poder judiciário sobre todos os metropolitas do Ocidente. Na mesma época, as cartas pastorais romanas assumiram um estilo semelhante à linguagem jurídica das leis civis e passaram a se chamar decretales. Um sínodo da capital declarava, ao mesmo tempo: "A Igreja Romana não se colocou acima das demais por decisões de concílios, mas obteve sua primazia pela palavra do nosso Salvador no Evangelho: 'Tu és Pedro, e sobre essa pedra edificarei a minha Igreja'". Na verdade, tal exigência se acentuou paulatinamente, na medida em que as dificuldades políticas da Igreja obrigavam-na a se organizar monarquicamente. A fórmula de uma autoridade superior tornava-se eficaz e necessária para a preservação da unidade eclesiástica, incessantemente abalada por disputas de supremacia ou controvérsias doutrinais.
____O esforço de coesão interna complementou-se na promoção de reuniões conciliares, que caracterizaram todo o século IV, não obstante acontecerem já desde o século II. Havia sínodos nacionais, provinciais e diocesanos, e em certas ocasiões os bispos se habituavam a reuniões anuais e mesmo duas vezes por ano. O Concílio Ecumênico de Nicéia, em 325, e o de Constantinopla, em 381, marcaram duas datas importantes na consolidação da ortodoxia e na busca de unificação da cristandade universal. Os concílios significavam a primazia do episcopado sobre cada bispo e uma garantia de forma coletiva de governo eclesiástico. Discutiam-se as questões mais diversas resolvendo-se dificuldades através de decretos relativos à doutrina (dogmas e símbolos) ou à constituição eclesiástica, à disciplina e ao culto (cânones). Com o advento de Constantino, os sínodos, ecumênicos ou regionais, tornaram-se também imperiais, pois interessavam ao Estado. Os Monarcas podiam convocá-los, dissolvê-los ou transferi-los. Convidados sempre à aprovação de todas as decisões, acabavam por transformá-las em leis obrigatórias para os cidadãos do Império.
____Constantino, não obstante conceder privilégios ao Cristianismo, adotava uma política tolerante, proibindo apenas os auspícios pagãos (adivinhações pelas entranhas de animais), tornados suspeitos de subversão. Os cultos antigos continuavam arraigados em grande parte da população, sobretudo no Ocidente e nos campos. Sua força consolidava-se entretanto nas classes politicamente mais influentes--o Exército, os intelectuais e as famílias patrícias de Roma, que possuíam grande riqueza e impunham os altos funcionários estatais. Mas o Cristianismo afirmou-se com a fundação de Constantinopla que, tornada capital do Império do Oriente, assumiu caráter essencialmente cristão, por estar alheia às tradições romanas. Os sucessores imediatos de Constantino, por sua vez, adotaram tratamento mais rigoroso frente aos pagãos, com a proibição dos sacrifícios antigos e fechamento de seus templos, sob pena de morte e seqüestro de bens. Só temporariamente o Cristianismo perdeu a primazia, quando Juliano, o Apóstata, tentou oficializar novamente os cultos antigos. Depois dele, vários imperadores cristãos proclamaram sucessivos decretos de tolerância.
____A partir de 382, sob Graciano, suspenderam-se as contribuições estatais para o culto pagão confiscaram-se as terras de seus templos e limitaram-se as imunidades sacerdotais, fatos que debilitaram economicamente a força das religiões antigas. Além disso retirou-se do Senado o altar da deusa Vitória, sob protestos dos nobres que constituíam a minoria senatorial pagã. Com o advento de Teodósio no Oriente, impôs-se o Símbolo de Nicéia como norma religiosa: os povos do Império deviam professar a "fé do apóstolo Pedro". Preocupado com as conversões de cristãos ao paganismo o mesmo imperador privou os apóstatas de seus direitos civis e políticos. Graças sobretudo as pressões do bispo Ambrósio de Milão Teodósio tornou-se ainda mais severo e, juntamente com Valentiniano Il (do Ocidente), proibiu, em 391, os sacrifícios a visita aos templos e a decoração de estátuas pagãs em Roma e no Egito. Sob a liderança do bispo local, o povo cristão de Alexandria destruiu ou se apossou de templos pagãos, gerando violentos distúrbios. Ao tomar o poder também no Ocidente, Teodósio julgou como alta traição os cultos cruentos e proibiu-os, mesmo em residências particulares.
____Destruíram-se os templos rurais, para pressionar a população camponesa e condenaram-se à fogueira os escritos anticristãos de Porfírio. Daí por diante, ser pagão significava estar fora da lei. O Cristianismo ortodoxo conseguira tornar-se a única religião legal do Estado.

RESUMO EXTRAIDO DA PUBLICAÇÃO DA ABRIL CULTURAL - "AS GRANDES RELIGIÕES "

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