Esta página apresenta uma compilação abrangente sobre as pesquisas científicas realizadas com médiuns, com foco especial nos trabalhos históricos de Sir William Crookes entre 1870 e 1874, incluindo fundamentação teórica espírita, evidências experimentais e análise crítica dos fenômenos mediúnicos.
O Espírito pode, sob certas condições, acumular força vital suficiente em seu perispírito para dar vida material momentânea ao organismo fluídico, usando matéria emprestada do médium para criar tangibilidade temporária.
Características do fenômeno: Trata-se de uma verdadeira criação, mas de duração efêmera, conseguida fora dos procedimentos normais da natureza.
Evidências da Materialização como Fenômeno Real
1. Perda de Peso do Médium
Florence Marryat documentou que a médium Florence Cook, pesando inicialmente 112 libras, tinha seu peso reduzido para apenas 56 libras (metade) quando o Espírito materializado tomava forma.
Este fenômeno foi verificado usando uma balança construída por projeto do Sr. Crookes.
2. Diferenças Físicas entre Médium e Espírito
William Crookes documentou diferenças objetivas entre Katie King (entidade materializada) e Florence Cook (médium):
Diferenças de estatura e aparência:
Katie era 12-15 centímetros mais alta que Florence
Katie tinha pescoço com pele lisa; Florence tinha cicatriz áspera visível
As orelhas de Katie não eram furadas; Florence usava brincos
Katie tinha compleição muito clara; Florence era morena
Dedos e rosto de Katie eram maiores
Diferenças fisiológicas medidas:
Pulso de Katie: 75 pulsações; Florence: 90 pulsações
Coração de Katie batia mais regularmente que o de Florence
Pulmões de Katie eram mais saudáveis (Florence estava em tratamento para tosse forte)
Cabelo de Katie era dourado escuro; Florence tinha cabelo castanho quase preto
Observações simultâneas: Florence Cook conversou acordada com Katie King e William Crookes simultaneamente, demonstrando serem duas personalidades distintas.
As Pesquisas Históricas de Sir William Crookes (1870-1874)
Contexto e Significância
As pesquisas de Crookes constituem um dos mais significativos incidentes na história do movimento espírita devido a:
Elevado padrão científico do investigador
Espírito severo e justo com que o inquérito foi conduzido
Resultados extraordinários obtidos
Corajosa profissão de fé que as seguiu
Momento da investigação: Crookes estava no pleno apogeu de seu desenvolvimento mental, e sua famosa carreira subsequente provou sua estabilidade intelectual.
Atitude Inicial e Metodologia
Postura inicial:
Crookes confessou que iniciou pensando que tudo fosse truque.
Seus colegas estavam satisfeitos, esperando que ele desmascarasse as "falsas pretensões do Espiritismo".
Motivação científica:
Considerava dever dos cientistas investigar.
Declarou valorizar muito a pesquisa da verdade e a descoberta de qualquer fato novo na Natureza para se insurgir contra a investigação apenas por parecer chocar-se com opiniões predominantes.
Condições espirituais:
Embora severo crítico dos fenômenos físicos, Crookes já tinha contato com fenômenos mentais e havia desenvolvido simpatia espiritual, o que ajudou na obtenção de resultados.
A pesquisa psíquica de melhor qualidade é sempre "psíquica" e depende de condições espirituais.
Experiências Preliminares (1869-1870)
Julho de 1869: Sessões com a médium Mrs. Marshall
Dezembro de 1869: Sessões com J.J. Morse
Julho de 1869: D.D. Home retornou a Londres com carta de apresentação do Professor Butlerof
Registro pessoal revelador:
Em 31 de dezembro de 1870, durante viagem à Espanha, Crookes escreveu em seu diário recordando sessões com sua esposa Nelly, comunicando-se com amigos mortos, incluindo seu irmão que havia falecido no mar três anos antes.
Florence Cook era uma jovem de quinze anos com enorme força psíquica capaz de produzir materializações completas.
Sua irmã, Kate Cook, também era famosa médium.
Após controvérsias sobre suposto desmascaramento, Florence se colocou completamente sob proteção da família Crookes.
Metodologia experimental:
Local: casa de Crookes em Mornington Road
Configuração: pequeno gabinete (câmara escura) abria-se para o laboratório
Processo: Florence jazia em transe no gabinete; após 20 minutos a 1 hora, a figura materializada (Katie King) entrava no laboratório
Observadores: Crookes e pessoas convidadas, com luz reduzida
Processo de materialização:
A figura feminina materializada era geralmente tão diferente da médium quanto duas pessoas podem ser.
A aparição movia-se, falava e agia como entidade independente, adotando o nome "Katie King".
Documentação Fotográfica Extraordinária
Crookes obteve 44 fotografias de Katie King usando luz elétrica, com metodologia rigorosa:
Equipamento utilizado:
5 aparelhos fotográficos completos
Câmaras de chapas completas, metades e quartos
2 câmaras estereoscópicas binoculares
5 banhos reveladores e de viragem-fixagem
Biblioteca usada como câmara escura
Resultados:
Sessões com 3-4 tomadas em cada uma das 5 máquinas, obtendo pelo menos 15 fotografias separadas por sessão.
Das 44 negativos, alguns ficaram excelentes, incluindo a famosa foto de Crookes com Katie apoiando-se em seus braços.
Observações Simultâneas Definitivas
Questão crítica: Crookes viu simultaneamente o médium e Katie?
Evidência inicial: Frequentemente acompanhava Katie até o gabinete, vendo às vezes ambas juntas, mas na maioria das vezes via apenas a médium em transe no chão, com Katie e seus vestidos brancos desaparecidos instantaneamente.
Testemunho definitivo (carta ao Banner of Light, 1874):
Crookes afirmou ter visto Miss Cook e Katie juntas sob luz de lâmpada de fósforo suficiente para ver distintamente.
Posteriormente, Katie e Miss Cook foram vistas juntas por ele e mais 8 pessoas em sua casa, iluminada por lâmpadas elétricas.
Embora o rosto de Florence estivesse coberto por xale grosso, Crookes tinha satisfação de verificar que ela estava lá.
Prova fotográfica comparativa:
Fotografias superpostas mostraram que Crookes tinha a mesma estatura em ambas, mas Katie era meia cabeça mais alta que Miss Cook e parecia mulher grande em comparação.
As faces diferiam em largura e vários outros detalhes.
Testemunho sobre a Médium
Crookes prestou grande homenagem à integridade de Florence Cook:
Sessões quase diárias causavam-lhe severo desgaste
Aprovava imediatamente cada ensaio proposto
Falava franca e diretamente
Jamais percebeu desejo de mistificar
Não acreditava que ela conseguisse mistificar mesmo se tentasse
Defesa da autenticidade: Imaginar que uma garota de 15 anos pudesse conceber e realizar durante 3 anos tão gigantesca impostura, submetendo-se a qualquer teste proposto com êxito maior na casa de Crookes do que na dos pais, seria "maior violência para a razão humana" do que aceitar que Katie King fosse o que dizia ser.
A Identidade de Katie King
Declaração de Katie:
Dizia-se filha de John King, Espírito conhecido por presidir sessões de fenômenos materiais.
Seu nome era Morgan (King era título comum a certa classe de Espíritos).
Teria vivido 200 anos antes, no reinado de Carlos II, na Jamaica.
Comportamento consistente:
Adaptava-se ao papel; conversação geralmente concorde com a informação.
Uma das filhas de Crookes recordava vividamente histórias da Espanha contadas por esse "gentil Espírito" às crianças da família.
Características pessoais:
Era amada por todos.
Mrs. Crookes relatou que Katie demonstrou vivo interesse por filho de 3 anos, pegou-o nos braços naturalmente e o devolveu toda risonha.
Crookes registrou que sua beleza e encanto eram únicos em sua experiência.
Experimento de Tolerância à Luz
Miss Florence Marryat (Mrs. Ross-Church) descreveu experimento ousado sobre efeito de luz intensa (Crookes não estava presente; Mr. Carter Hall estava):
Procedimento:
Katie ficou de pé junto à parede com braços abertos como se crucificada.
Três bicos de gás foram acesos em pleno poder em espaço de cerca de 16 pés quadrados.
Resultado dramático:
Katie manteve aspecto por um segundo no máximo, depois começou a fundir-se gradualmente.
O processo foi comparado a boneca de cera fundindo-se junto a fogo intenso:
Formas tornaram-se alteradas e indistintas
Olhos desapareceram nas órbitas
Nariz desapareceu
Osso frontal sumiu
Membros desapareceram debaixo dela
Ficou cada vez menor como edifício ruindo
Restou apenas a cabeça no chão
Depois apenas pedaço de pano que desapareceu como puxado por mão invisível
Detalhe adicional: Em algumas sessões, o cabelo de Miss Cook ficou preso ao solo, não atrapalhando aparecimento subsequente de Katie fora do gabinete.
Pesquisas com D.D. Home
Dificuldades naturais:
Crookes deparou com dificuldades naturais da investigação, mas teve senso para adaptar-se às condições em vez de abandonar o trabalho.
Reconheceu que em assunto inteiramente novo é preciso adaptação.
Sobre as condições: Observou que experiências eram numerosas, mas devido ao imperfeito conhecimento das condições favoráveis, à maneira aparentemente caprichosa do exercício da força, e às flutuações da energia de Home, só algumas vezes o resultado obtido foi posteriormente confirmado com aparelhos específicos.
Resultados notáveis:
Alteração no peso dos objetos, posteriormente confirmada por Dr. Crawford (grupo Goligher) e investigação Margery em Boston.
Foram sempre usados controles eliminando possibilidade de fraude.
Dr. Huggins (autoridade em espectroscopia) e Serjeant Cox (eminente jurista) testemunharam as experiências.
Limitação científica: Foi impossível a Crookes levar eminentes homens de ciência a dar ao assunto ao menos uma hora de atenção.
Fenômenos com Instrumentos Musicais
Observação: Manejo de instrumentos musicais, especialmente acordeão, em condições impossíveis de atingir as teclas, foi perfeitamente examinado e constatado.
Interpretação de Crookes:
Admitindo existência de corpo etérico com membros correspondentes aos nossos, não haveria razão plausível para não se realizar desdobramento parcial, com dedos etéricos aplicando-se sobre teclas enquanto dedos materiais repousavam nos joelhos do médium.
Resolveria-se admitindo que cérebro do médium pode comandar dedos etéricos que adquirem força para pressionar teclas.
Classificação:
Muitos fenômenos psíquicos (leitura com olhos vendados, toque em objetos distantes) podem ser referidos ao corpo etérico, sendo classificados como materialismo elevado e sutil em vez de Espiritualismo.
Acham-se em classe distinta dos fenômenos mentais (mensagens evidentes dos mortos), que constituem verdadeiramente o centro do movimento espírita.
Pesquisas com Miss Kate Fox
Participação da inteligência do médium: Crookes observou muitos casos em que a inteligência do médium parecia participar largamente dos fenômenos, mas não de maneira consciente e desonesta.
Inteligência exterior: Observou casos que pareciam indicar seguramente ação de inteligência exterior, não pertencente a quem quer que fosse presente na sala.
Variedade de sons: Leves batidas, sons agudos como bobina de indução em trabalho, detonações no ar, agudas pancadas metálicas, estalos como máquina de fricção, sons de arranhaduras, chilrear de pássaros.
Objetividade dos ruídos:
Miss Kate Fox bastava pôr a mão sobre uma coisa para que se ouvissem ruídos altos (tríplice pulsação), às vezes tão altos que eram ouvidos de outras salas.
Crookes os ouviu em: árvore, pano de vidraça, pedaço de fio de ferro, membrana, tamborim, forro de tilbori, piso de teatro.
Independência do contato:
Sons não necessitavam permanência de contato.
Foram ouvidos do chão, paredes, quando mãos e pés do médium eram seguros, quando ela estava de pé numa cadeira, num gancho presa do teto, numa jaula de ferro, quando caía desmaiada num sofá.
Ouvidos em caixa harmônica, sentidos em ombros e debaixo das próprias mãos, em folha de papel segura entre dedos por fio.
Conclusão definitiva: Após experimentar todas as hipóteses aventadas (principalmente na América), Crookes não teve como fugir à convicção de que eram ocorrências reais, não produzidas por truques ou meios mecânicos, liquidando lendas de estalo dos artelhos, queda de maçãs e outras explicações absurdas.
Reação do Mundo Científico
Apoio Recebido
Maiores espíritas tiveram pontos de vista confirmados ou foram encorajados a avançar:
Russel Wallace
Lord Rayleigh
William Barrett (jovem e brilhante físico)
Cromwell Varley
Oposição Feroz
Grupo intolerante: Chefiado pelo fisiologista Carpenter, que zombou do assunto e facilmente imputou tudo desde maluquice até fraude.
Ciência oficial:
Pôs-se fora da questão.
Stokes (Secretário da Sociedade Real) recusou-se a ver com próprios olhos, colocando-se na mesma posição dos cardeais que não quiseram ver as luas de Júpiter pelo telescópio de Galileu.
Defrontando fato novo, a ciência material mostrou-se tão fanática quanto a teologia medieval.
Evolução da Posição de Crookes
Período de Cautela
Após 1874, a violência da oposição e timidez dos que deviam sustentá-lo o alarmaram:
Esquivou-se sem buscar subterfúgios
Recusou reeditar artigos sobre o assunto
Não quis circulação de fotografias de Katie King
Tornou-se excessivamente cauteloso em definir posição
Declaração cautelosa (citada por Professor Brofferio):
Seres invisíveis e inteligentes dizem ser Espíritos de pessoas mortas, mas Crookes nunca teve provas de que sejam realmente as pessoas que dizem ser.
Inclinava-se a acreditar que muitos amigos tivessem recebido as provas desejadas.
Reafirmação Madura (1898)
Relatório presidencial à Associação Britânica (Bristol, 1898):
Sir William referiu-se ligeiramente às pesquisas:
"Nada tenho de que me retratar. Confirmo minhas declarações já publicadas. Na verdade, muito teria que acrescentar a isto."
Convicção Final (cerca de 1918)
Em entrevista:
"Jamais tive que mudar de idéia a tal respeito. Estou perfeitamente satisfeito do que disse nos primeiros dias. É muito certo que um contacto foi estabelecido entre este mundo e o outro."
Sobre impacto no materialismo:
"Penso que sim. Pelo menos ele convenceu a maioria do povo que sabe alguma coisa relativa à existência do outro mundo."
Carta de Pêsames (1904)
Por ocasião da morte de Mrs. Comer (Florence Cook), em 24 de abril de 1904, Crookes escreveu:
"Acreditamos, como verdadeira crença, que os nossos entes queridos, ao passarem para o Além, ainda nos observam — e essa crença que deve muito de sua certeza à mediunidade de Mrs. Comer (ou Florence Cook, como aparecerá ela por vezes à nossa lembrança) — fortificará e consolará aqueles que aqui ficaram."
Questões sobre a Médium Florence Cook
Incidente Sitwell
Único caso de dúvida: Foi quando ela foi pega por Sir George Sitwell e acusada de fingir-se de Espírito.
É pouco provável que se mova em transe profundo, mas em semitranse nada impede que, inconsciente ou semiconscientemente, ou obedecendo a sugestão dos assistentes, passeie fora do gabinete.
Reflexo de ignorância: Uma infinidade de provas não deveria ser comprometida por único episódio dessa natureza.
Detalhe revelador: Nessa ocasião, observadores concordaram que a figura estava de branco, mas ao ser agarrada, Mrs. Comer não estava de branco.
Interpretação Científica Moderna
Dr. Schrenck Notzing: Investigador alemão explica que isso não era materialização, mas transfiguração - quando ectoplasma, sendo insuficiente para construir figura completa, é usado para revestir o médium de modo que este possa carregar o simulacro.
Fase de transição:
Encontrada em quase todos os médiuns de materialização.
A literatura registra grande número de tentativas de fraude de médiuns que assim representavam Espíritos (casos de Bastian pelo Príncipe Herdeiro Rudolph, Miss Cook de Crookes, Madame d'Espérance).
Em todos esses casos, o médium foi agarrado, mas os estojos usados para disfarce desapareceram imediatamente e não foram mais encontrados.
Censura apropriada: Deve ser dirigida mais aos assistentes negligentes do que à médium inconsciente.
Desfecho
A filha de Florence anunciou sua morte: "Ela morreu em grande paz e felicidade."
Conclusões e Implicações
As pesquisas de Sir William Crookes estabeleceram bases científicas sólidas para fenômenos mediúnicos, demonstrando:
Rigor científico aplicável ao estudo do Espiritismo
Diferenças objetivas mensuráveis entre médium e entidade materializada
Documentação fotográfica de fenômenos extraordinários
Persistência da convicção ao longo de décadas
Honestidade intelectual em face de oposição violenta
Necessidade de condições espirituais para pesquisa psíquica de qualidade
Limitações da ciência materialista em aceitar fatos novos
A página conclui que essas pesquisas históricas constituem um dos mais significativos marcos na história do movimento espírita, conduzidas por um dos mais respeitados cientistas de sua época, com resultados que desafiam explicações materialistas e apontam para a realidade da sobrevivência da consciência após a morte.
Resumo elaborado com auxílio de inteligência artificial
(Claude, Anthropic, 2026)
Este resumo visa facilitar a compreensão inicial, mas o conteúdo completo da página contém detalhes importantes adicionais.
Conteúdo da página:
(com respectivas fontes)
O Espiritismo ensina
desde muito tempo que o Espírito,
encarnado ou desencarnado, é envolvido de um envelope sutil chamado perispírito.
O Espírito é capaz, dentro de certas condições, de acumular em seu perispírito bastante força vital para dar uma vida material momentânea ao organismo fluídico;
isto, com a matéria emprestada ao médium,
dá a tangibilidade de um corpo ordinário; é uma verdadeira criação, mas que apenas tem duração
efêmera, porque é conseguida fora dos procedimentos normais da natureza.
Vários
fatos apóiam esta teoria, a saber:
A perda de peso do médium – Uma prova em favor desta teoria é que
se tem constatado um diminuição do peso do médium durante as seções de materialização.
Assim, Florence Marryat escreveu: «Tendo visto a Srta.
Florende Cook
colocada sobre uma balança, construída por projeto do Sr. Crookes, constatei que a médium, que antes pesava 112 libras,
logo que o Espírito materializado tomava forma, o peso do seu corpo não
ultrapassava mais que a metade, 56 libras.»
(Ver:Reação da mesa durante a levitação)
A diferença física entre a médium e o Espírito – Katie King e
Florence são de estaturas e de cabeleiras diferentes.
William Crookes escreveu: «Uma noite, contei as pulsações de Katie; seu pulso batia
regularmente 75, enquanto que a de Srta. Cook, poucos instantes após,
atingia 90, sua cifra habitual.
Apoiando meu ouvido sobre o peito de Katie,
podia ouvir seu coração bater no interior, e suas pulsações estando
ainda mais regulares que as da Srta. Cook; após as seções elas me
permitiram a mesma experiência.
Experimentando da mesma maneira, os pulmões
de Katie se mostravam mais sãos que os de sua médium, porque no momento em
que fiz a experiência, a Stra. Cook seguia um tratamento médico contra uma
forte constipação.»
Por vezes adiantou-se a hipótese de que o ser
materializado não seria outro que o duplo do médium.
Esta teoria tem apenas base empírica porque, como podemos ver
dos fatos acima, o Espírito e seu médium são duas personalidades bem
distintas.
Além disso, Florence Cook, despertada, conversa durante alguns
minutos com Katie King e William Crookes, que vê todas as duas.
As pesquisas de Sir William Crookes de 1870 até o ano de 1874
AS PESQUISAS sôbre os fenômenos do Espiritismo por Sir William Crookes — ou Professor Crookes, como era então chamado — durante os anos de 1870 a 1874 constituem um dos mais significativos incidentes na história do movimento.
São notáveis devido ao elevado padrão científico do investigador, o severo e justo espírito com que o inquérito foi conduzido, os extraordinários resultados e a corajosa profissão de fé que as seguiu.
A tecla favorita dos adversários foi atribuir certa fraqueza física ou crescente senilidade a cada nova testemunha da verdade psíquica, mas ninguém pode negar que essas pesquisas foram conduzidas por um homem em pleno apogeu de seu desenvolvimento mental e que a famosa carreira que se seguiu constituiu uma prova suficiente de sua estabilidade intelectual.
É de notar-se que o resultado não só veio provar a integridade do médium Florence Cook, com quem foram obtidos os mais sensacionais resultados, mas também a de D. D. Home e a de Miss Kate Fox, que foram, também, severamente controlados.
Confessa Crookes que iniciou as suas investigações sôbre fenômenos psíquicos pensando que tudo fôsse truque.
Seus colegas sustentavam o mesmo ponto de vista e ficaram satisfeitos com a atitude que êle havia adotado.
Foi manifestada profunda satisfação porque a investigação ia ser conduzida por um homem tão altamente qualificado.
Quase não duvidavam de que aquilo que consideravam as falsas pretensões do Espiritismo fôsse desmascarado.
Disse um escritor:
“Se homem como Mr. Crookes trata do assunto... em breve saberemos em que acreditar.”
Numa comunicação a Nature, o Doutor Balfour Stewart, mais tarde Professor, elogiou a coragem e a honestidade que levou Mr. Crookes a tomar aquela resolução.
O próprio Crookes assentou que era dever dos cientistas fazer tal investigação.
E escreveu:
“Tem-se lançado em rosto dos homens de ciência a sua pretensa liberdade de opinião, quando sistemàticamente se recusam a fazer uma investigação científica sôbre a existência e a natureza de fatos sustentados por tantos testemunhos competentes e fidedignos, e os convidam a um exame livre, onde e quando quiserem.
Por minha parte dou muito valor à pesquisa da verdade e à descoberta de qualquer fato novo na Natureza, para me insurgir contra a investigação apenas por parecer que ela se choca com as opiniões predominantes”.
Foi com êsse Espírito que êle iniciou a sua investigação.
Contudo deveria ser verificado que, conquanto o professor Crookes fôsse severo crítico dos fenômenos físicos, já tinha êle tomado contacto com os fenômenos mentais e parece que os havia aceitado.
É provável que essa simpatia espiritual o tenha ajudado na obtenção de seus notáveis resultados, porque, nunca será por demais repetido, de vez que é sempre esquecido — a pesquisa psíquica da melhor qualidade é sempre “psíquica” e depende de condições espirituais.
Não é o homem teimoso e opiniático, que investiga com uma grande falta de senso de medida para coisas espirituais o que consegue resultados; mas aquêle que verifica que o estrito uso da razão e da observação não é incompatível com a humildade mental e com aquela delicadeza e cortesia que produzem a harmonia e a afinidade entre o investigador e o seu sensitivo.
Parece que as investigações menos materiais de Crookes começaram no verão de 1869.
Em julho daquele ano fêz sessões com o conhecido médium Mrs. Marshall e em dezembro com outro médium famoso, J. J. Morse.
Em julho de 1869 D. D. Home, que havia feito sessões em S. Petersburgo, voltou a Londres com uma carta de apresentação do Professor Butlerof para o Professor Crookes.
Ressalta um fato interessante do diário pessoal de Crookes, quando de sua viagem à Espanha, em dezembro de 1870, com a Expedição do Eclipse.
Em data de 31 de dezembro [1],escreve êle:
“Não posso deixar de recordar esta data no ano passado Nelly [2]e eu estávamos em sessão, comunicando-nos com queridos amigos mortos e, ao soarem as doze horas, êles nos desejaram feliz Ano Novo.
Sinto que agora nos olham e, como o espaço não lhes é obstáculo, penso que ao mesmo tempo olham para Nelly.
Sôbre nós ambos sei que há alguém e que todos nós — Espíritos e mortais — em sua presença nos curvamos como ante um Pai e Mestre; e minha humilde prece a Êle — o Grande Deus, como O chama o Mandarim é que continue sua misericordiosa proteção sôbre Nelly e sôbre mim, bem como sôbre nossa pequena e querida família...
Possa Êle também permitir que continuemos a receber comunicações espíritas de meu irmão, que atravessou os umbrais em alto mar, a bordo de um navio, há mais de três anos”.
Depois acrescenta amorosos cumprimentos de Ano Bom a sua espôsa e às crianças e conclui:
“E quando os anos terrenos houverem passado, possamos nós viver outros mais felizes no mundo dos Espíritos, do qual tenho tido ocasionalmente alguns reflexos.”
Miss Florence Cook, com a qual Crookes realizou a sua série clássica de experiências, era uma jovem de quinze anos, de quem se dizia possuir enorme fôrça psíquica, que tomava as raras formas de materializações completas.
Parece que era uma característica de família, porque sua irmã, Miss Kate Cook, não era menos famosa.
Houve algumas dissensões sôbre um suposto desmascaramento, nas quais um tal Mr. Volckman tomou posição contra Miss Cook e, no propósito de se vingar, colocou-se inteiramente sob a proteção de Mrs. Crookes, declarando que seu marido podia fazer quaisquer experiências sôbre os seus dons e nas condições que quisesse, nada pedindo a não ser que pudesse demonstrar o seu caráter como médium, através de exatas conclusões apresentadas ao mundo.
Felizmente ela estava tratando com um homem de inatacável honestidade intelectual.
Temos tido experiências, nestes últimos tempos, com médiuns que se entregavam com reservas às investigações científicas e foram atraiçoados por investigadores que não possuíam a coragem moral de admitir aquêles resultados que teriam conduzido à aceitação pública da interpretação espírita.
O Professor Crookes publicou um relatório completo de seus métodos no Querterly Journal of Science, do qual era então redator.
Em sua casa em Mornington Road, um pequeno gabinete se abria para o laboratório, por uma porta com uma cortina.
Miss Cook jazia em transe num divã no quarto interno; no externo, com luz reduzida, ficava Crookes com as pessoas que houvesse convidado.
No fim de um período de vinte minutos a uma hora estava completa a figura com o ectoplasma da médium.
A existência dessa substância e o seu método de produção eram então desconhecidos.
Pesquisas posteriores lançaram muita luz sôbre o assunto, razão por que foram incorporadas no capítulo sobre o ectoplasma.
Completada a operação, abria-se a cortina e entrava no laboratório uma figura feminina, geralmente tão diferente da médium quanto duas pessoas podem sê-lo.
Essa aparição, que se movia, falava e agia em todos os sentidos como uma entidade independente, é conhecida pelo nome que ela própria adotou, de “Katie King”.
A explicação natural dos cépticos é que as duas mulheres realmente eram uma e mesma e que Katie era uma clara imagem de Florence.
O opositor podia apoiar-se no fato de que, como observaram Crookes, Miss Marryat e outros, por vêzes Katie era muito parecida com Florence.
Aqui está um dos mistérios da materialização que exige mais consideração cuidadosa do que zombarias.
Experimentando com Miss Besinnet, famosa médium americana, o autor destas linhas observou a mesma coisa: quando era pouca a fôrça psíquica, o rosto começava por se assemelhar ao da médium e por fim se tornava completamente diferente.
Alguns especuladores imaginaram que a forma esférica da médium, seu corpo espiritual, teria tido liberdade pelo transe e constituía a base sôbre a qual as outras entidades manifestantes construiam seu próprio simulacro.
Seja como fôr, a coisa não foi admitida; é semelhante aos fenômenos de Voz Direta, nos quais por vêzes a voz se assemelha à do médium, logo de início, tomando depois um tom inteiramente diferente, ou se dividindo em duas vozes simultâneas.
Entretanto o estudioso por certo tem o direito de proclamar que Florence Cook e Katie King eram a mesma individualidade, até que provas evidentes lhe demonstrem que isto é possível.
Tal prova o Professor Crookes tem muito cuidado em oferecer.
Os pontos diferentes que observou entre Miss Cook e Katie são os seguintes:
“A altura de Katie varia; em minha casa eu a vi quinze centímetros mais alta que Miss Cook.
Na noite passada estando descalça e sem pisar na ponta dos pés, ela era doze centímetros mais alta que Miss Cook.
O pescoço de Katie estava nu; a pele era perfeitamente lisa à vista quanto ao tato, enquanto o de Miss Cook é uma grande escara que, nas mesmas condições, é distintamente visível e áspera ao tato.
As orelhas de Katie não são furadas, enquanto que Miss Cook habitualmente usa brincos.
A compleição de Katie é muito alva, enquanto a de Miss Cook é muito morena.
Os dedos de Katie são muito mais longos do que os de Miss Cook e seu rosto também é maior.
Há também marcadas diferenças nos modos e nos ademanes”.
Posteriormente, acrescenta:
“Ultimamente tendo examinado muito Katie, iluminada à luz elétrica, posso acrescentar aos pontos, já mencionados, de diferenças entre ela e o seu médium, que tenho a mais absoluta certeza de que Miss Cook e Miss Katie são duas individualidades distintas, no que se refere aos corpos.
Vários sinais no rosto de Miss Cook não existem no de Katie.
O cabelo de Miss Cook é de um castanho tão escuro que parece negro; um cacho do cabelo de Katie, que tenho agora em minha frente, e que ela me permitiu cortasse de suas tranças exuberantes, inicialmente examinado e, para minha satisfação, verificado que cresceu, é de um rico dourado escuro.
“Uma noite contei o pulso de Katie. Tinha 75 pulsações, enquanto que o de Miss Cook pouco depois marcava 90 pulsações.
Aplicando o ouvido ao peito de Katie, pude ouvir o coração a bater ritmado e pulsando mais firmemente que o de Miss Cook, quando esta me permitiu que a auscultasse depois da sessão.
Examinados do mesmo modo os pulmões de Katie pareceram mais fortes que os da médium, pois ao tempo em que a examinei, Miss Cook estava sob tratamento médico de uma tosse rebelde.”
Crookes tirou quarenta e quatro fotografias de Katie King, empregando a luz elétrica.
Escrevendo em The Spiritualist, em 1874, à página 270, assim descreve os métodos adotados:
“Durante a semana anterior à partida de Katie, ela fêz sessões quase que tôdas as noites em minha casa, a fim de me permitir fotografá-la à luz artificial.
Cinco aparelhos completos foram dispostos para êsse fim; consistiam de câmaras, umas chapas completas, outra de metade de chapas, uma terceira de quartos de chapas e duas câmaras estereoscópicas binoculares, preparadas para fotografarem Katie ao mesmo tempo, cada vez que ela posasse.
Cinco banhos reveladores e de viragem-fixagem foram usados e bom número de chapas foi preparado antecipadamente, de modo que não houvesse complicações ou demoras durante a operação de fotografia que foi realizada por mim mesmo, com o auxílio de um assistente.
Minha biblioteca foi usada como câmara escura. Tem portas de sanfona, que abrem para o laboratório; uma dessas portas foi tirada das dobradiças, e uma cortina foi colocada em seu lugar, de modo a permitir que Katie passasse para um lado e para o outro fàcilmente.
Os nossos amigos presentes ficaram sentados no laboratório, em frente à cortina e as câmaras foram colocadas um pouco atrás dêles, prontas para fotografarem Katie quando ela saísse e fotografar também qualquer coisa na cabine, quando a cortina fôsse levantada para isso.
Cada noite havia três ou quatro tomadas de fotografias em cada uma das cinco máquinas, obtendo-se pelo menos quinze fotografias separadas em cada sessão.
Algumas se estragaram ao serem reveladas, outras na regulagem da luz. Ao todo tenho quarenta e quatro negativos, alguns inferiores, outros sofríveis, e alguns excelentes.”
Algumas dessas fotografias estão em poder do autor destas linhas e certamente não há mais maravilhosa impressão em qualquer chapa do que aquela que mostra Crookes no auge de seu vigor com êsse anjo — porque na verdade ela o era — apoiando-se em seus braços.
O vocábulo “anjo” pode parecer um exagêro, mas quando um Espírito do outro mundo se submete ao momentâneo desconfôrto de uma existência artificial a fim de trazer a lição da sobrevivência a uma geração materialista e mundana, não há têrmo que melhor se lhe aplique.
Surgiu uma discussão se Crookes alguma vez teria visto ao mesmo tempo o médium e Katie.
Diz Crookes a certa altura de seu relatório que freqüentemente acompanhou Katie até a cabine “e algumas vêzes as via juntas, ela e a sua médium, mas na maioria das vêzes não vi ninguém, a não ser a médium em transe, caída no chão, pois Katie e seus vestidos brancos tinham desaparecido instantaneamente”.
Entretanto, um testemunho muito mais direto é dado por Crookes numa carta a Banner o/ Light, U. S. A. [3] e que é reproduzida em The Spiritualist,[4] de Londres, de 17 de julho de 1874, página 29.
Diz êle:
“Em resposta a sua pergunta quero afirmar que vi Miss Cook e Katie juntas, no mesmo momento, sob a luz de uma lâmpada de fósforo, que era suficiente para que visse distintamente aquilo que descrevi.
O ôlho humano tem naturalmente um grande ângulo de horizonte, de modo que as duas figuras eram abarcadas ao mesmo tempo no meu campo visual; mas como a luz era fraca, e os dois rostos por vêzes estavam distanciados alguns pés um do outro, naturalmente eu movia a luz e meu olhar fixava alternadamente uma e outra, quando queria trazer o rosto de Miss Cook ou de Katie para aquela parte do campo visual onde a visão é mais nítida.
Desde que a ocorrência acima referida foi verificada, Katie e Miss Cook foram vistas juntas por mim e por oito outras pessoas, em minha casa, iluminada fartamente por lâmpadas elétricas.
Nessa ocasião o rosto de Miss Cook não era visível, pois sua cabeça ficava envôlta num xale grosso, mas eu, principalmente, tinha a satisfação de verificar que ela lá estava.
Uma tentativa de dirigir a luz sôbre a sua face descoberta, quando em transe, teve sérias conseqüências.”
A máquina fotográfica também demonstra as diferenças entre a médium e a forma. Diz êle:
“Uma das mais interessantes fotografias é aquela em que me acho de pé ao lado de Katie; ela está descalça, em certo ponto do soalho.
Depois vesti Miss Cook como Katie e nos colocamos, eu e ela, exatamente na mesma posição e fomos fotografados pelas nossas máquinas, colocadas exatamente como na outra experiência, e iluminadas pela mesma luz.
Quando essas duas chapas são superpostas, a minha imagem coincide, no que se refere à estatura, etc.; mas Katie é meia cabeça mais alta que Miss Cook e parece uma mulher grande, em comparação com esta última.
Em muitos dos relatos diferem quanto à largura daface e quanto a vários outros detalhes.”
Crookes rende uma grande homenagem à médium Florence Cook:
“As sessões quase diárias com as quais Miss Cook me obsequiou lhe produziram severo desgaste de energias e quero demonstrar publicamente a minha gratidão para com ela, pela solicitude em ajudar as minhas experiências.
Cada ensaio que eu propunha tinha a sua imediata aprovação e se submetia com o maior entusiasmo; fala franca e diretamente e jamais percebi a menor coisa que denunciasse o desejo de mistificar.
Na verdade não acredito que ela conseguisse mistificar, ainda quando tentasse; e se o fizesse seria pilhada incontinenti, pois tais atitudes destoam completamente de sua natureza.
Aliás, imaginar que uma mocinha de quinze anos fôsse capaz de conceber e, durante três anos, realizar tão gigantesca impostura; que, durante êsse tempo, se submetesse a qualquer teste que lhe fosse proposto e mantido no mais rigoroso segrêdo; que se sujeitasse a ser examinada a qualquer momento, antes como depois da sessão e tivesse os melhores êxitos em minha casa, do que em casa de seus pais, sabendo-se que ela me visitava com o objetivo de se submeter a ensaios estritamente científicos — imaginar, digo eu, que a Katie King dos últimos três anos fôsse fruto de uma impostura é maior violência para a razão humana e para o bom senso do que acreditar que ela seja aquilo que diz ser”. [5]
Admitindo que uma forma temporária foi construída com o ectoplasma de Florence Cook, e que essa forma foi então utilizada como um ser independente, que se dizia “Katie King”, ainda enfrentamos a questão: “Quem foi Katie King?”
A isto só se pode dar a resposta que ela deu, quando reconhecia que não tínhamos provas.
Declarou-se filha de John King, que desde muito era conhecido entre os Espíritas como um Espírito que presidia a sessões de fenômenos materiais.
Sua personalidade e adiante discutida, num capítulo sôbre os Irmãos Eddy e Mrs. Holmes, que recomendamos ao leitor.
Seu nome era Morgan e King era antes um título comum a certa classe de Espíritos, do que um nome familiar.
Sua vida decorrera duzentos anos antes, no reinado de Carlos 2º, na Ilha da Jamaica.
Se isto éverdade ou não, certamente ela se adaptou ao papel e sua conversação era em geral concorde com a informação.
Uma das filhas do Professor Crookes escreveu ao autor e aludiu a uma vivida lembrança das histórias da Espanha, contadas por êsse gentil Espírito às crianças da família.
Ela mesma se fêz amada por todos. Mrs. Crookes escreveu:
“Numa sessão em nossa casa, com Miss Cook, quando um dos nossos filhos tinha apenas três anos, Katie King, um Espírito materializado, demonstrou por êle o mais vivo interêsse e pediu para ver a criança.
Então o menino foi trazido para a sala da sessão, pôsto nos braços de Katie que, segurando-o por algum tempo muito naturalmente, o devolveu tôda risonha.”
O Professor Crookes deixou registrado que a sua beleza e o seu encanto eram únicos em sua experiência.
O leitor pode muito bem pensar que a luz reduzida empregada pelo Professor Crookes comprometa o resultado da experiência.
Contudo o Professor nos assegurou que na série de sessões foi verificada a tolerância e que a imagem era capaz de suportar uma luz muito mais intensa.
Essa tolerância tinha os seus limites, que aliás nunca foram ultrapassados pelo Professor Crookes, mas que foram verificados numa ousada experiência descrita por Miss Florence Marryat (Mrs. Ross-Curch).
É preciso dizer que o Professor Crookes não se achava presente, nem Miss Marryat jamais o afirmou.
Entretanto ela cita o nome de Mr. Carter Hall, como um dos presentes.
Katie havia consentido com muito bom humor que examinassem qual o efeito que seria produzido sôbre a sua imagem por uma luz intensa.
“Ficou de pé junto à parede da sala de visttas, com os braços abertos como se estivesse crucificada.
Então foram acesos três bicos de gás em todo o seu poder, num espaço de cêrca de dezesseis pés quadrados.
O efeito sôbre Katie King foi maravilhoso.
Ela manteve o seu próprio aspecto durante um segundo, no máximo, e depois começou a fundir-se gradualmente.
Não posso comparar a sua desmaterialização senão a uma boneca de cera que se fundisse junto a um fogo intenso.
Primeiro as formas se tornaram alteradas e indistintas; parecia que se interpenetravam.
Os olhos desapareceram nas órbitas, o nariz desapareceu, o osso frontal sumiu.
Depois os membros como que desapareciam debaixo dela, que se tornava cada vez menor, como um edifício que ruisse.
Por fim havia apenas a cabeça no chão — depois apenas um pedaço de pano, que desapareceu de súbito, como se uma mão o tivesse puxado — e nós ficamos admirados, a olhar os bicos de gás, no lugar onde Katie King havia estado”. [6]
Miss Marryat acrescenta o interessante detalhe de que nalgumas dessas sessões o cabelo de Miss Cook ficou prêso ao solo, o que de modo algum atrapalhou o aparecimento subseqüente de Katie fora da cabine.
Os resultados obtidos em sua própria casa foram honesta e destemerosamente relatados pelo Professor Crookes em seu Journal e produziram a maior impressão no mundo científico.
Alguns dos maiores espíritas, como Russel Wallace, Lord Rayleigh, o jovem e brilhante físico William Barrett, Cromwell Varley e outros tiveram confirmados os seus pontos de vista anteriores ou foram encorajados a avançarem por um novo caminho do conhecimento.
Houve, entretanto, um grupo ferozmente intolerante, chefiado pelo fisiologista Carpenter, que zombou do assunto e fàcilmente imputou tudo desde a maluquice até a fraude de seu ilustre colega.
A ciência oficial pôs-se de fora da questão.
Publicando o seu relatório, Crookes anexou as cartas nas quais pedia a Stokes, Secretário da Sociedade Real, que viesse ver as coisas com os próprios olhos.
Recusando-o, Stokes colocou-se exatamente na mesma posição daqueles cardeais que não quiseram ver as luas de Júpiter pelo telescópio de Galileu.
Defrontando um fato novo, a ciência material se mostrou tão fanática quanto a teologia medieval.
Antes de deixar o assunto Katie King, algumas palavras devem ser ditas quanto ao futuro do grande médium, do qual aquela extraia o seu invólucro físico.
Miss Cook tornou-se Mrs. Comer, mas continuou a exibir os seus admiráveis poderes.
O autor conhece apenas um caso em que a honestidade de sua mediunidade foi posta em dúvida; foi quando ela foi pegada por Sir George Sitwell e acusada de fingir-se de Espírito.
O autor é de opinião que um médium de materializações deveria ser manietado, de modo que não pudesse vagar pela sala — e isto com o objetivo de proteger o próprio médium.
É pouco provável que o médium se mova em transe profundo, mas em semitranse nada impede que inconsciente ou semiconscientemente, ou ainda obedecendo a uma sugestão dos assistentes, passeie fora da cabine.
É um reflexo de nossa própria ignorância admitir que uma infinidade de provas pudessem ser comprometidas por um único episódio dessa natureza.
É digno de nota, entretanto, a circunstância de que, nessa ocasião, os observadores concordaram que a figura estava de branco, enquanto que, ao ser agarrada, Mrs. Comer não estava de branco.
Um investigador experimentado teria concluído que isso não era uma materialização, mas uma transfiguração, o que significa que o ectoplasma, sendo insuficiente para construir uma figura completa, foi usado para revestir o médium de modo que êste pudesse carregar o simulacro.
Estudando casos semelhantes, o grande investigador alemão Doutor Schrenck Notzing [7]diz:
“Isto (uma fotografia) é interessante porque esclarece a gênese das chamadas transfigurações, isto é... o médium toma a si o papel de Espírito, esforçando-se para representar o caráter da pessoa em questão, revestindo-se do material fabricado.
Essa fase de transição é encontrada em quase todos os médiuns de materialização.
A literatura sôbre tais casos registra um grande número de tentativas de fraude de médiuns que assim representavam Espíritos, como, por exemplo, a do médium Bastian pelo Príncipe Herdeiro Rudolph, a da médium de Crookes, Miss Cook, a de Madame d’Espérance, etc.
Em todos êsses casos o médium foi agarrado, mas os estojos usados para o disfarçar desapareceram Emediatamente e não mais foram encontrados.”
Assim, parece que a verdadeira censura, em tais casos, deve ser dirigida mais aos assistentes negligentes do que à médium inconsciente.
A natureza sensacional das experiências de Crookes com Miss Cook e, sem dúvida, o fato de que eram mais acessíveis ao ataque, tenderam para fazer sombra aos resultados muito positivos com Home e com Miss Fox, que assentaram os dons dêsses médiuns sôbre bases sólidas.
Cedo Crookes deparou com as naturais dificuldades com que se encontram os investigadores, mas teve bastante senso para admitir que num assunto inteiramente novo a gente tem que se adaptar às condições e não abandonar o trabalho, aborrecido pelo fato de as condições não se adaptarem às nossas idéias preconcebidas.
Assim, falando de Home, diz êle:
“As experiências que realizei foram muito numerosas mas, devido ao nosso imperfeito conhecimento das condições que favorecem ou não as manifestações dessa fôrça, é aparentemente caprichosa maneira por que se exerce, e ao fato de que Mr. Home está sujeito a incontáveis flutuações dessa energia, só algumas vêzes aconteceu que o resultado obtido numa ocasião fôsse subseqüentemente confirmado e verificado com aparelhos imaginados para tal fim”. [8]
O mais notável dêsses resultados foi a alteração no pêso dos objetos, posteriormente confirmada completamente pelo Doutor Crawford, trabalhando com o grupo Goligher, e também no curso da investigação Margery, em Boston.
Objetos pesados tornavam-se leves e os leves tornavam-se pesados, pela ação de uma fôrça invisível que parecia estar sob a influência de uma inteligência independente.
Os controles por meio dos quais era eliminada tôda possibilidade de fraude foram sempre usados nas experiências e devem convencer qualquer leitor liberto de preconceitos.
O Doutor Huggins, muito conhecida autoridade em espectroscopia, e Serjeant Cox, o eminente jurista, reunidos com diversos outros assistentes, testemunharam as experiências.
Entretanto, como já ficou dito, foi impossível a Crookes levar alguns dos mais eminentes homens de ciência a dar ao assunto ao menos uma hora de atenção.
O manejo de instrumentos de música, especialmente um acordeon, em condições que era impossível atingir as teclas, foi um outro fenômeno perfeitamente examinado e constatado por Crookes e seus distintos assistentes.
Admitindo que o próprio médium fôsse capaz de tocar o instrumento, o autor não se acha em condições de admitir que o fenômeno seja uma prova de uma inteligência independente.
Uma vez garantida a existência de um corpo etérico, com membros correspondentes aos nossos, não há uma razão plausível por que não se realizasse um desdobramento parcial e por que os dedos etéricos não se aplicassem sôbre as teclas enquanto os dedos materiais repousassem sôbre os joelhos do médium.
O problema se resolve simplesmente, então, admitindo-se que o cérebro do médium pode comandar os seus dedos etéricos e êsses dedos podem adquirir a fôrça suficiente para fazer pressão sôbre as teclas.
Muitos fenômenos psíquicos, como a leitura com os olhos vendados, o toque em objetos distantes, etc. podem, na opinião do autor, ser referidos ao corpo etérico e ser classificados antes como um materialismo elevado e sutil do que como Espiritualismo.
Acham-se numa classe muito distinta da dos fenômenos mentais, tais como as evidentes mensagens dos mortos, que constituem verdadeiramente o centro do movimento espírita.
Falando de Miss Kate Fox, diz o Professor Crookes:
“Observei muitos casos em que, parece, a inteligência do médium participa largamente dos fenômenos."
E acrescenta que isto não ocorre de maneira consciente e desonesta, e continua:
“Observei alguns casos que parecem indicar seguramente a ação de uma inteligência exterior, não pertencente a quem quer que seja presente na sala”. [9]
Eis o ponto a que chegou o autor, e que é expresso por uma autoridade maior que a sua própria.
Os fenômenos que melhor ficaram estabelecidos na investigação de Miss Kate Fox foram o movimento de objetos a distância e a produção de sons percutidos ou batidas.
Estas últimas cobriam uma larga escala:
“leves batidas, sons agudos como os de uma bobina de indução em trabalho, detonações no ar, agudas pancadas metálicas, estalos como os de uma máquina de fricção, sons como de arranhaduras, chilrear de pássaros, etc.” [10]
Todos quanto tivemos experiência com êsses sons fomos obrigados a nos perguntar até onde estariam êles sob o contrôle do médium.
O autor chegou à conclusão, como já ficou dito, de que até certo ponto estão sob o contrôle do médium e, dai por diante, não.
Êle não pode esquecer o mal-estar e o embaraço de um grande médium camponês do norte quando, em presença do autor, batidas fortes e sons como os estalos dos dedos se fizeram ouvir em tôrno de sua cabeça na sala do café de um hotel em Doncaster.
Se êle tivesse dúvidas de que as batidas eram independentes do médium, estas não teriam prevalecido naquela ocasião.
A respeito da objetividade dêsses ruídos, diz Crookes de Miss Kate Fox:
“Parece que lhe basta pôr a mão sôbre uma coisa para que se ouçam ruidos altos, como uma tríplice pulsação, por vêzes tão altos que são ouvidos de outras salas.
Assim os ouvi numa árvore, num pano de vidraça, num pedaço de fio de ferro, num pedaço de membrana, num tamborim, no fôrro de um tilbori, no piso de um teatro.
Além disso não é necessária a permanência do contacto.
Ourri tais sons provenientes do chão, das paredes, etc., quando as mãos do médium e os pés eram seguros — quando ela estava de pé numa cadeira — quando ela estava num gancho presa do teto — quando presa numa jaula de ferro — e quando caía desmaiada num sofá.
Ouvi-os numa caixa harmônica e os senti em meus ombros e debaixo das próprias mãos.
Ouvi-os numa folha de papel, segura entre os dedos por um fio atravessado numa das pontas.
Conhecendo tôdas as hipóteses aventadas, principalmente na América, para explicar tais sons, experimentei-as de todos os modos possíveis, até que não houve meio de fugir a convicção de que eram ocorrências reais, não produzidas por truques ou por meios mecânicos."
Assim ficam liquidadas as lendas do estalo dos artelhos, da queda das maçãs e de outras explicações absurdas que têm sido aventadas para se compreenderem os fatos.
Apenas é preciso dizer que os lamentáveis incidentes ligados aos últimos dias das Irmãs Fox de certo modo justificam aquêles que, sem conhecimento real dos fatos, tiveram a sua atenção voltada para aquêle único episódio — que é abordado alhures.
Pensou-se por vêzes que Crookes houvesse modificado as suas opiniões a respeito dos fenômenos psíquicos, segundo expressou em 1874.
Pode, ao menos, dizer-se que a violência da oposição e a timidez dos que deviam tê-lo sustentado o alarmaram e o levaram a considerar em perigo a sua posição do ponto de vista científico.
Sem buscar subterfúgios, êle esquivou-se.
Recusou reeditar os seus artigos sôbre o assunto e não quis que circulassem as fotografias maravilhosas nas quais o Espírito materializado de Kate King aparecia de braço com êle.
Tornou-se excessivamente cauteloso em definir a sua posição.
Numa carta citada pelo Professor Brofferio [11] diz êle:
“Tudo quanto me interessa é que sêres invisíveis e inteligentes dizem que são Espíritos de pessoas mortas.
Mas nunca tive provas de que sejam realmente as pessoas que dizem ser, como as exigia, para que pudesse acreditá-lo.
Entretanto inclino-me a acreditar que muitos dos meus amigos tenham recebido, como declaram, as provas desejadas e eu próprio freqüentemente me tenho inclinado para essa convicção”.
Á medida que envelhecia, essa convicção se arraigou ou, talvez, se tornou mais consciente das responsabilidades que essas excepcionais experiências podem determinar.
Em seu relatório presidencial perante a Associação Britânica em 1898, em Bristol, Sir William se refere ligeiramente às suas primeiras pesquisas. E diz:
“Ainda não toquei num outro interêsse — para mim o mais sério e o de maior alcance.
Nenhum incidente em minha carreira científica é mais conhecido do que a parte que tomei durante anos em certas pesquisas psíquicas.
Já se passaram trinta anos desde que publiquei um relatório das experiências tendentes a mostrar que fora do nosso conhecimento científico existe uma fôrça utilizada por inteligências que diferem da comum inteligência dos mortais...
Nada tenho de que me retratar. Confirmo minhas declarações já publicadas. Na verdade, muito teria que acrescentar a isto.”
Cêrca de vinte anos mais tarde sua crença era ainda mais forte. Durante uma entrevista [12] disse êle:
“Jamais tive que mudar de idéia a tal respeito.
Estou perfeitamente satisfeito do que disse nos primeiros dias.
É muito certo que um contacto foi estabelecido entre êste mundo e o outro.”
Em resposta à pergunta se o Espiritismo não havia liquidado o velho materialismo dos cientistas, acrescentou:
“Penso que sim.
Pelo menos êle convenceu a maioria do povo, que sabe alguma coisa relativa à existência do outro mundo”.
Por gentileza de Mr. Thomas Blyton, tive ultimamente a oportunidade de ver a carta de pêsames escrita por Sir William Crookes, por ocasião da morte de Mrs. Comer.
É datada de 24 de abril de 1904, e nela diz:
“Transmita a mais sincera simpatia de Lady Crookes e minha própria, à família, por essa perda irreparável.
Acreditamos, como verdadeira crença, que os nossos entes queridos, ao passarem para o Além, ainda nos observam — e essa crença que deve muito de sua certeza à mediunidade de Mrs. Comer (ou Florence Cooh, como aparecerá ela por vêzes à nossa lembrança) — fortificará e consolará aquêles. que aqui ficaram”.