Privações voluntárias

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Privações voluntárias. Mortificações


Fazei o bem aos vossos semelhantes e mais mérito tereis, do que as privações voluntárias, com o objetivo de uma expiação igualmente voluntária.

 

Porem, há privações voluntárias que sejam meritórias: a privação dos gozos inúteis, porque desprende da matéria o homem e lhe eleva a alma.  Meritório é resistir à tentação que arrasta ao excesso ou ao gozo das coisas inúteis; é o homem tirar do que lhe é necessário para dar aos que carecem do bastante. Se a privação não passar de simulacro, será uma irrisão.

[9a p.343 q.720]    


A vida de mortificações ascéticas que desde a mais remota antigüidade teve praticantes no seio de diversos povos não é meritória. Procurai saber a quem ela aproveita e tereis a resposta. Se somente serve para quem a pratica e o impede de fazer o bem, é egoísmo, seja qual for o pretexto com que entendam de colori-la. Privar-se a si mesmo e trabalhar para os outros, tal a verdadeira mortificação, segundo a caridade cristã.

[9a p.343 q.721]    


Permitido é ao homem alimentar-se de tudo o que lhe não prejudique a saúde. Alguns legisladores, porém, com um fim útil, entenderam de interdizer o uso de certos alimentos e, para maior autoridade imprimirem às suas leis, apresentaram-nas como emanadas de Deus.

[9a p.343 q.722]    


Dada a vossa constituição física, a carne alimenta a carne, do contrário o homem perece.  A lei de conservação lhe prescreve, como um dever, que mantenha suas forças e sua saúde, para cumprir a lei do trabalho. Ele, pois, tem que se alimentar conforme o reclame a sua organização.

[9a p.343 q.720]    


Será meritório abster-se o homem da alimentação animal, ou de outra qualquer, por expiação, se praticar essa privação em benefício dos outros.  Aos olhos de Deus, porém,

só há mortificação, havendo privação séria e útil.  Por isso é que qualificamos de hipócritas

os que apenas aparentemente se privam de alguma coisa.

[9a p.344 q.724]    


Quanto às mutilações operadas no corpo do homem ou dos animais, a Deus não pode agradar o que seja inútil e o que for nocivo Lhe será sempre desagradável. Porque, ficai sabendo, Deus só é sensível aos sentimentos que elevam para Ele a alma. Obedecendo-Lhe à lei e não a violando é que podereis forrar-vos ao jugo da vossa matéria terrestre.

[9a p.344 q.725]    


  • Os sofrimentos naturais são os únicos que elevam, porque vêm de Deus. 

  • Os sofrimentos voluntários de nada servem, quando não concorrem para o bem de outrem. Supões que se adiantam no caminho do progresso os que abreviam a vida, mediante rigores sobre-humanos, como o fazem os bonzos, os faquires e alguns fanáticos de muitas seitas?

  • Por que de preferência não trabalham pelo bem de seus semelhantes? 

  • Vistam o indigente; consolem o que chora; trabalhem pelo que está enfermo; sofram privações para alívio dos infelizes e então suas  vidas serão úteis e, portanto, agradáveis a Deus. 

  • Sofrer alguém voluntariamente, apenas por seu próprio bem, é egoísmo; sofrer pelos outros é caridade: tais os preceitos do Cristo.

[9a p.344 q.726]    


Contra os perigos e os  sofrimentos é que o instinto de conservação foi dado a todos os seres. Fustigai o vosso espírito e não o vosso corpo, mortificai o vosso orgulho, sufocai o vosso egoísmo, que se assemelha a uma serpente a vos roer o coração, e fareis muito mais pelo vosso adiantamento do que infligindo-vos rigores que já não são deste século.

[9a p.345 q.727]

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