Misticismo
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Crianças e Adolescentes
DESAPARECIDOS
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O MISTICISMO DA LITERATURA DO CRISTIANISMO

____Por outro lado como as Escrituras Canônicas não tratavam detalhes sobre os apóstolos e seus martírios, surgiram, desde o final do século II, sobretudo na África, Síria e Egito, numerosos atos, epístolas e apocalipses atribuídos aos primeiros discípulos do Cristo. Circulavam ainda escritos sobre a infância de Jesus, a vida de Maria e José, a Paixão, a descida aos infernos e a ressurreição_de_Jesus. A Igreja não reconheceu a inspiração desses livros e chamou-os "apócrifos", ou seja, não-autênticos. A literatura popular transbordava um intenso misticismo e uma piedade edificante, testemunhados na oração que São Pedro teria recitado durante seu martírio: "O Cristo, tu és para mim um pai, uma mãe, um irmão, um amigo, um servo, um patrão; tu és tudo e não há outra coisa senão tu". O mistério da cruz trazia um fascínio particular para os cristãos das massas, conforme os Atos de André: "0 Cruz que foste consagrada pelo corpo de Cristo, cruz longamente desejada, carinhosamente amada, procurada sem cessar e enfim preparada para minha alma que deseja, toma-me e me entrega ao meu Mestre, para que me receba por ti Aquele que por ti me redimiu".
____Grande parte dos apócrifos trazia influências gnósticas, quando não se originava diretamente dessas seitas. O gnosticismo cristão manifestava-se particularmente num conjunto de vinte homilias conhecidas como Pseudo-Clementinas, escritas sob forma de romance de aventuras. Narravam as viagens de Clemente, que andava pelo mundo à procura da Verdade, encontrando-a finalmente junto ao apóstolo Pedro. Este se apresentava como um vegetariano e prescrevia diversos ensinamentos morais rigoristas, contrários ao casamento e favoráveis aos banhos incessantes.
____Na medida em que o Estado se tornara cristão, a nova religião devia se manifestar além do domínio espiritual e realizar-se nas instituições profanas. Desse modo, o poder civil passou a zelar pela ortodoxia. O Código Teodosiano consagrou um livro Inteiro às questões religiosas, chegando a detalhes de disciplina eclesiástica, como a proibição às mulheres de entrarem nas igrejas de cabelos cortados. Os feriados restringiram-se às festas cristãs, além dos aniversários dos imperadores e das capitais. As constituições sobre o casamento receberam notáveis marcas evangélicas: proibia-se o concubinato ao homem casado, punia-se o adultério e dificultava-se o divórcio permitido nos tempos pagãos.
____O Cristianismo não conseguiu, no entanto, mudar em algumas gerações, o espírito de uma civilização nascida e amadurecida no paganismo. Os combates entre gladiadores e a freqüência aos prostíbulos, considerados costumes anticristãos, permaneceram vivos entre o povo, não obstante interdição estatal e ataques da hierarquia. Tornando-se religião das massas, arcou também o Cristianismo com responsabilidades da cidade terrena, antes assumidas pelo paganismo. Sua atitude frente ao problema da guerra sofreu profunda modificação: o Concílio de Arles, realizado em 314, previa excomunhão contra soldados desertores, "porque o Estado não é mais perseguidor". Naturalmente, temerosa de abandonar seu antigo ideal de não-violência, a hierarquia aconselhava os soldados guerreiros a realizar três anos seguidos de penitência.
____Como nunca se propusera à reforma das estrutura temporais, a Igreja não atingiu as raízes da tirania nem conseguiu barrar a natureza absolutista do regime romano. Não obstante alguns casos isolados de protestos episcopais, o direito penal e administrativo do Império recorria cada vez mais à arbitrariedade, às torturas e ao terror policial, igualmente em relação aos problemas sociais, a Igreja assistiu impotente, ao desenvolvimento das estruturas pré-feudais, baseadas nos privilégios dos grandes proprietários e na opressão aos camponeses. De resto, tornara-se imensamente rica através de doações dos fiéis e auxílios e isenções fiscais dos governos. Depois do imperador e do Estado, a Igreja constituíra-se no mais importante proprietário territorial do Império. Graças a isso e também à fortuna da aristocracia, já em parte convertida, a Igreja pôde inaugurar e aplicar a noção de caridade no sentido social. A esmola, reconhecida como dever essencial do cristão atingiu as dimensões de um serviço público. Os bispos passaram a organizar obras assistenciais em nível institucional, edificando hospitais, hospícios "casas de pobres" e asilos, para velhos, órfãos, viúvas, doentes, miseráveis, viajantes e, notadamente leprosos. Assim, o Estado via diminuir uma tensão social que aumentava seu esfacelamento interno. Segundo João Crisóstomo, dentre 100.000 cristãos de Constantinopla, sem contar os heréticos, a metade constituía-se de pobres, socorridos pela Igreja. De modo geral, a influencia do Cristianismo no Império Romano antes adiou a derrocada do sistema do que inaugurou uma nova civilização.

RESUMO EXTRAÍDO DA PUBLICAÇÃO DA ABRIL CULTURAL - "AS GRANDES RELIGIÕES"

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