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GNOSTICISMO
e RESSURREIÇÃO
imortalidade_da_alma: “Creio que a salvação da alma não precisa ser
discutida: pois quase todos os hereges, independentemente da forma como a
aceitam, pelo menos não a negam“.5
A ressurreição é do “corpo, inundado de sangue, constituído de
ossos, entrelaçado por nervos, entremeado por veias (uma carne), que (...) nasceu e (...) morreu,
sem dúvida alguma humano”.6 Tertuliano pensa que a ideia
do sofrimento,
da morte e da ressurreição
de Cristo chocará os leitores; insiste que é preciso crer, porque
isso é absurdo!”.7
(Ver:
Ressurreição
da carne)
No entanto, certos cristãos a quem chama de hereges discordam. Sem negar
a ressurreição, rejeitam a interpretação literal; alguns acham
“extremamente revoltante, repugnante e impossível”. Os cristãos_gnósticos interpretam a ressurreição de várias
maneiras.
Contudo,
os ortodoxos condenam todas essas interpretações; Tertuliano declara que
quem quer que negue a ressurreição da
carne é hereges não cristão.
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5
- Tertuliano, De Resurrectione Carnis 2. |
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6
- Tertuliano, De Carne Christi 5. |
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7
- Ibid. |
[84
- página 2]
Os cristãos_gnósticos
rejeitaram a teoria
de Lucas. Alguns gnósticos chamaram a concepção literal da ressurreição
de “fé dos tolos”.36 A ressurreição,
insistiram, não era um evento único no passado:
-
ao
contrário, simbolizava como a presença de Cristo poderia ser
vivenciada no presente.
-
O que
importava não era a Visão literal, e sim a espiritual.37
Observaram que muitos dos que testemunharam os acontecimentos da vida de Jesus continuaram cegos a seu
significado. Os próprios discípulos com freqüência entendiam mal o que
Jesus dizia:
-
os que anunciaram o retorno físico à vida de
seu mestre morto apreenderam de forma equivocada uma verdade
espiritual por um acontecimento real.38
-
Mas o verdadeiro discípulo pode nunca ter visto
o Jesus terrestre, por ter nascido na época errada, como disse Paulo
de si mesmo.39
Entretanto, essa deficiência física pode tornar-se uma vantagem
espiritual: essas pessoas, como Paulo, podem encontrar Cristo primeiro no
nível da vivência
interna.
Como é experimentada a presença de Cristo?
-
O
autor do Evangelho de Maria, um dos poucos textos
gnósticos descobertos antes dos textos de Nag-Hammadi, interpreta
as aparições da ressurreição como visões recebidas em sonhos ou
transes extáticos. Esse evangelho
gnóstico relembra a tradição registrada em Marcos e João,
de que Maria Madalena foi a primeira a ver o Cristo ressuscitado.40
João diz que Maria viu Jesus na manhã de sua ressurreição
e que ele apareceu aos outros discípulos apenas depois, na tarde do
mesmo dia.41Segundo o Evangelho
de Maria, Maria Madalena, tendo uma visão do Senhor,
perguntou-lhe: “Corno aquele que vê urna aparição a enxerga?
[Através] da alma, [ou] através do espírito?”42
Ele respondeu que os
visionários percebem através da mente.
-
O Apocahjse
de Pedro, descoberto em Nag Harnmadi, conta como Pedro, em transe
profundo, viu Cristo, que lhe explicou: “Sou o espírito
intelectual,
repleto da luz irradiante.”43
-
As
narrativas gnósticas, quase sempre, mencionam como aqueles que
as recebem respondem à presença de Cristo com emoções intensas -
terror, reverência, sofrimento e alegria.
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Contudo, os escritores gnósticos não rejeitam as visões como
fantasias ou alucinações. Respeitam - até reverenciam - essas
experiências pelas quais a intuição_espiritual revela
discernimento sobre a natureza da realidade. Um professor gnóstico,
cujo Tratado sobre a Ressurreição, uma carta a Reghinos,
seu aluno, foi encontrado em Nag Hammadi, diz:
-
“Não
suponha que a ressurreição seja uma aparição
[phantasia; literalmente,
‘fantasia’]. Não é uma aparição; mas sim algo
real.
-
Em
vez disso”, continua, “é mais apropriado dizer que o
mundo é uma aparição e não a ressurreição.”44
Como
um mestre budista, o professor de Reghinos prossegue com
a explicação de que a experiência humana comum é a morte
espiritual. Entretanto, a ressurreição é o momento da iluminação:
“É (...) a revelação do que na verdade existe (...) é a
mudança (metabolë
- mudança, transição)
para o novo.”45 Quem quer que compreenda
isso se torna vivo espiritualmente. Isto significa, ele declara,
que você pode “ressurgir dos mortos” imediatamente:
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-
Um
outro texto de Nag Hammadi, o Evangelho
de Filipe,
expressa a mesma visão, ridicularizando cristãos
ignorantes que aceitam a versão
literal da ressurreição.
-
“Aqueles
que dizem que morrerão primeiro e depois ressuscitarão estão
equivocados.”47
-
Devem,
ao contrário, “receber a ressurreição enquanto estão
vivos”. O autor diz, de modo irônico, que em certo
sentido, então, "é necessário se elevar ‘nesta
carne’, já que tudo existe nela!”.48
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O interesse desses gnósticos
está na possibilidade de encontrar o Cristo ressuscitado no presente,49
mais que nos eventos passados atribuídos ao “Jesus histórico”.
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36.
Orígenes, Commentarium
in I
Corinthians,
em Journal of Theological
Studies 10 (1909),
46-47.
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37.
Tertuliano, De
Resurrectione
Carnis,
19-27.
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38.
Irineu (Bispo
de Lyon), AH 1.30.13. |
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39.
I
Coríntios 15:8.
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40.
Marcos 16:9.
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41.
João 20:11-19.
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42.
Evangelho de Maria 10.17-21,
em NITIL 472.
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43.
Apocalipse
de Pedro 83.8-10, em NHL 344. Para discussão das tradições gnósticas
de Pedro, ver P. Perkins, “Peter in Ginostic Revelations”, em Proceedings
ofSBL:
1974 Seminar
Papers II
(Washington, 1974), 1-13.
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44.
Tratado da Ressurreição 48.10-16,
em NHL 52-53. Ver M. L. Peel, The
Epistle to Rheginos;
A Valentinian
Letter
ou the Resurrection:
Introduction,
Translation,
Analysis,
and
Exposition
(Londres/Filadélfia,
1969); B. Layron, The
Gnostic
Treatise
on
Resurrection
frorn Nag Hammadi. Edited, with Translation and Commentary (Missoula,
1979). A
tradução das citações do Tratado segue a de Layton, como mencionado nos Agradecimentos.
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45.
Tratado sobre a Ressurreição 48:34-38,
em NHL 53.
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46.
Jbid., 47.18-49.24,
em NHL 53.
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47.
Evangelho de Filipe
73.1-3. em NHL 144.
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48.
Jbid., 57:19-20, em
NHL 135.
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49.
Consultar H. Koester, “One Jesus and Four Primitive Gospels”,
em J. M. Rohinson e H. Koester, Trajectories
through Early Christianity
(Filadélfia, 1971), 158-204, e Rohinson, “The Johannine
Trajectory’, ibid., 232-268. |
[84
- página 10]
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O Apócrifo_de_João, por
exemplo, começa quando João diz como partiu após a crucificação
com “grande pesar": Imediatamente (...)
[os céus se abriram, e tudo] a criação [que está] abaixo do céu
brilhou, e [o mundo] tremeu. [Eu estava com medo e] vi na luz [uma
criança](...) enquanto eu
olhava, ela se tornou um ancião. Então, ele [mudou sua] forma outra
vez, tornando-se um servo eu vi uma [imagem] com múltiplas formas na
luz...64
Enquanto olhava maravilhado, a presença falou: João, Jo[ã]o. por que não crê, por que tem medo? Essa
forma não lhe é estranha,
é? Não tenha medo! Sou
aquele que [está com você] sempre (...)
[Vim para ensinar-] lhe o que é
[e o que era] e o que virá [a ser] (...)"65
-
A Carta_de_Pedro_a_Filipe, descoberta em Nag-Hammadi, relata que após a morte de
Jesus os discípulos estavam rezando no Monte das Oliveiras quando
surgiu uma grande luz, para que as montanhas brilhassem diante de sua
aparição. E uma voz clamou a eles dizendo: “Ouçam...
Eu sou Jesus Cristo,
aquele que estará para sempre convosco."66
Então, os discípulos perguntaram-lhe sobre os segredos do universo
e “a voz veio a eles através da luz” para responderlhes.
-
A Sabedoria
de Jesus Cristo
narra uma história semelhante, na qual, mais uma vez, os
discípulos estão reunidos em uma montanha após a morte de Jesus,
quando “lhes apareceu o Redentor, não em sua forma anterior, mas
como espírito invisível. Entretanto, sua aparência assemelhava-se
um grande anjo de luz”. Ao responder ao seu espanto e terror,
sorriu, e ofereceu-se para ensinar-lhes os “segredos [mysteria;
‘mistérios´, literalmente] do plano sagrado” do universo e
seus destinos.67 Mas
o contraste com a concepção ortodoxa é imenso.68 Nela, Jesus não apareceu na
forma humana, comum, que os discípulos reconheceram e, com certeza,
não na forma corpórea.
Ele surgiu como uma presença luminosa e a voz saía da luz, ou se
transformou em múltiplas formas.
-
O Evangelho_de_Filipe
retorna o mesmo tema: Jesus pegou a todos de surpresa, pois não se revelou da
forma [que] era, mas da maneira que [eles seriam] capazes de vê-lo.
Revelou a si mesmo para [todos. Revelou a si mesmo aos grandes como
grande (...) (e) pequeno aos
pequenos.69
Aos discípulos imaturos,
apareceu como uma criança; aos maduros, como um ancião, símbolo da
sabedoria. Como sublinha o professor gnóstico Teódoto,
“cada um reconhece o Senhor à sua própria maneira, nem todas são
semelhantes".70
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64.
Apócrifo
de João 1.30-2.7, em NHL 99.
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65.
Ibid.,
2.9-18, em NHL 99.
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66.
Carta
de
Pedro
a
Filipe
1,34.10-18, em NHL 395. Para análise, ver M, Meyer, The Letter of Peter to Philipe NHL VIII, 2:
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Text,
Translation, and Commentary (Claremont, 1979).
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67.
A Sophia de Jesus Cristo
91.8-13, em NHL 207-208.
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68.
Para discussão, ver H.-C. Puech, “Gnostic Gospels and
Related Documents’, em New Testament
Apocrypha
I. 231-362.
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69.
Gospel
of
PhiIip
57.28-35, em NHL 135.
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70.
Clemente de Alexandria, EXCERPTA 23.4.
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[84
- página 16]
Os autores_gnósticos quase sempre atribuem sua tradição a pessoas externas
ao círculo dos 12 - Paulo, Maria Madalena e Tiago. Alguns insistem em
que o grupo dos 12 - inclusive Pedro - não recebeu a gnosis
por testemunhar primeiro a ressurreição_de_Cristo. Outro grupo de gnósticos,
conhecidos como sethianos, porque se diziam filhos de Seth,
o terceiro filho de Adão e Eva, diz que os discípulos, iludidos por
“um grande erro”, imaginaram que Cristo ressurgiu, em forma carnal,
dos mortos. Mas o Gristo ressuscitado apareceu a “poucos discípulos”,
que sabia capazes de compreender
“tão grandes mistérios",86 e ensinou-lhes a
com preender a ressurreição em
termos espirituais e não na corporeidade.
Outros gnósticos explicam que
determinados membros dos 12 receberam depois visões e revelações
especiais, atingindo assim a iluminação. O Apocalipse de Pedro descreve como ele, em transe_profundo, experimenta a presença de Cristo, que abre seus
olhos para a visão_espiritual: [O
Salvador] me disse (...)“(...) coloque suas mãos sobre (seus) olhos
(...) e diga o que vê! Mas quando fiz isso, não vi nada. Eu disse:
“Ninguém vê (dessa forma). E, mais uma vez, ele falou: Tente outra
vez." E senti medo e júbilo, pois vi uma nova luz, mais forte que a
luz do dia. Então, ela desceu até o Salvador e contei a ele sobre as
coisas que vi.88
86
- Irineu, AH 1.30.13.
88
- Apocalipse de Pedro 72.10-28, em NHL. 340-341
[84
- página 23]
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