Relato de um Espírito réprobo
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Crianças e Adolescentes
DESAPARECIDOS
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____Os casos que até aqui tenho citado são de defuntos que se encontram nas diversas regiões, ou “estados”, do “ plano_astral”, onde, pela lei de afinidade, gravitam e permanecem, ao que parece, durante um período de tempo mais ou menos longo, todos os Espíritos de mortos que viveram na Terra de maneira moralmente normal. Restar-me-ia referir alguns casos em que se encontrassem narrados os acontecimentos por que passam, durante e após_a_crise_da_morte, os Espíritos de “réprobos”, constrangidos a gravitar, pela lei da afinidade, nas “esferas de provação”, correspondentes ao Inferno_dos_cristãos; inferno, bem entendido, sem torturas físicas e onde os sofrimentos morais não seriam eternos, mas transitórios. Devo, porém, declarar que não cheguei a encontrar um só exemplo de defunto caído nas esferas infernais, que tenha vindo transmitir mediunicamente a narração da sua triste aventura.
____O fato, no entanto, se afigura muito explicável, pois que as relações mediúnicas com entidades existentes nas mais baixas esferas de provações parece que se não verificam com freqüência; talvez mesmo jamais se verifiquem. Conhecem-se, todavia, as condições dessas esferas, pelas descrições que numerosas personalidades mediúnicas hão feito.
____Pelo que toca aos Espíritos que se encontram nas esferas de provação “ intermediárias” e pouco inferiores ao “plano astral”, observarei que alguns deles têm descrito as vicissitudes da sua entrada no meio espiritual. Dentre esses, pode assinalar-se o caso, já agora famoso, do escritor inglês Oscar Wilde, com que já me ocupei longamente, nesta mesma revista (março e abril de 1926). Outro caso interessante é o de um inglês de família nobre, morto em conseqüência de um acidente, após curta existência de deboches, mas que não era naturalmente mau. Ele se manifestou sucessivamente pelas mediunidades de Miss Aimée Earle e de Miss Florence Dismore e a história dessas manifestações merece resumida.
____Miss Aimée Earle é médium_psicográfica e clarividente. Certo dia, em que estava a ouvir um trecho de música, que sua amiga Florence Dismore tocava ao piano, teve a primeira visão de um “moço moreno”. No dia seguinte, estando as duas amigas a ler e comentar uma brochura espiritualista, viu Miss Earle aparecer-lhe ao lado o mesmo fantasma e entabular conversação com ela, Miss Florence Dismore descreve da maneira seguinte esse primeiro encontro:
____Começou ele por interrogá-la acerca das afirmações contidas na brochura que as duas moças se entretinham a ler e a cujo propósito ponderou: “Mas, eu não estou morto, pois que estou aqui!” O Espírito-guia de Miss Earle, que, vigilante, também se lhe achava ao lado, conservando-se invisível para o outro Espírito, aconselhou ao médium que não respondesse às perguntas deste último e continuasse a ler o seu livro. Ela obedeceu e, terminada a leitura, o “moço moreno” foi conduzido algures, por seus “guias” espirituais.
____Em resumo: os “Espíritos-guias” o tinham trazido à presença dos dois médiuns, ao que parece, para lograrem convencê-lo de que morrera e se achava no mundo espiritual. Começavam assim a sua redenção que, dotado como ele era de aptidões especiais, devia operar-se, narrando a sua história por aqueles médiuns, a título de edificação moral e espiritual, em proveito dos vivos. Ele não tardou, com efeito, a se manifestar psicograficamente por Miss Earle, comunicando-lhe que tinha a missão de lhe ditar a história de sua vida, o que entrou logo a fazer. Miss Earle, cujos dias eram tomados pelas suas ocupações profissionais, reconheceu não dispor do tempo necessário para receber o ditado metódico de uma exposição completa. Por isso, depois do recebimento das três primeiras mensagens, decidiu, de acordo com o Espírito que se comunicava, que este continuaria a ditar a sua história a Miss Florence Dismore. Foi o que se deu, até que a exposição se concluiu.
____Essa obra traz o título: The Progression of Marmaduke. O Espírito relata nela a sua história mundana, as circunstâncias de sua morte, ...

  • Os remorsos que o assaltaram depois do seu trespasse,
  • a generosa intervenção de um amigo morto, que ele, quando vivo, ofendera profundamente,
  • e as conseqüências felizes do seu arrependimento, que lhe abrira o caminho da redenção.

____Se bem esse Espírito se demore pouco a tratar da “ crise_da_morte”, contudo não tendo à minha disposição outros casos do mesmo gênero, decido-me a reproduzir o pouco que ele diz a respeito. Eis como principia a sua mensagem, ditada a Miss A. Earle:

  • “Que de coisas a desaprender em a nova existência! ó, quantas! quantas! Mas, como há de uma criatura fazer para se redimir? é tarde demais para mim. Entretanto, tenho ao meu derredor Espíritos generosos, que me animam, abrindo-me o coração à esperança de que um dia também para mim se realizarão a visão espiritual e a audição das harmonias celestes. Em todo caso, já não me sinto egoísta e experimento viva simpatia pelos outros. Aplicaram-me o tratamento que me convinha: enérgico, mas necessário...
  • Estando eu vivo, um segundo bastou para me dar a morte. Achava-me deitado na falda de uma encosta rochosa. Um bloco se destacou lá do alto e me esmagou a cabeça, tornando-me irreconhecível o semblante. Reconheceram-me unicamente pelos papéis que levava na minha carteira.
  • Isso foi obra de um instante. Vi-me, de um golpe, mergulhado nas mais profundas trevas. Procurei, tateando, caminhar através da obscuridade. Nenhuma luz via; ao redor, mortal silêncio: era uma situação terrificante. Parecia-me, às vezes, divisar ao longe uma claridade e perceber sons musicais. Que significavam eles? Sentia que ia enlouquecer e lutava contra o desconhecido como um homem às voltas com o vácuo. Afinal, esgotado, caí ao chão, numa crise espantosa e indescritível de depressão moral. Maldizia de Deus e do gênero humano. Queria morrer e não podia!... Achei-me, em seguida, não sei como, junto à encosta rochosa, onde se achava estendido o meu corpo, e o vi! Tratei de o levantar, de o ressuscitar, mas tive que me afastar, repelido pelo fedor que se desprendia dele. Achava-me num estranho e incoerente estado d’alma: não podia compreender onde me encontrava, nem o que se passara. Veio-me a ideia de que ficara louco; depois do que, fui presa de horrendo pesadelo, do qual precisava livrar-me o mais prontamente possível. A ideia, porém, de que estava morto jamais me acudiu ao Espírito.
  • Ignoro durante quanto tempo errei por entre aqueles rochedos. Mas, um dia, finalmente, a minha loucura chegou a uma fase inesperada: achei-me num meio familiar, do qual participava, embora sem conhecer as pessoas que via. Como quer que seja, estava lá e de lá não me podia ir. Da primeira vez, ouvi música tocada ao piano. Da segunda, ouvi a leitura de um livro e as conversas que se lhe seguiram e que me deram a saber que as duas senhoras que ali estavam tinham conhecimento não só da minha presença, como do meu caráter.”

____Tratava-se da circunstância, mencionada acima, em que os “guias” do “moço moreno”, que ele, aliás, não percebia, o conduziram para junto dos médiuns.

  • “Escutei atentamente e aprendi que aquelas duas damas acreditavam que o homem possui um espírito, que sobrevive_à_morte_do_corpo. Pensei: “Que absurdo!” Mas, de repente, alguém me esclareceu o espírito, transmitindo-me a verdade, quanto ao que me dizia respeito: “Eu então estava morto!” Mas, nesse caso, onde me achava? Que fora feito de mim? Desde que me convenci de estar morto, as coisas mudaram. Vi-me cercado de Espíritos que pareciam desejosos de me assistirem... Não podeis fazer ideia do que significava para mim essa mudança. Disse: “Estou confuso e desorientado. Julgava-me louco, mas estou morto!” Responderam-me: “Morto unicamente para o mundo da matéria, da visão física, da audição física; mais vivo, porém, do que nunca para o mundo espiritual, com uma visão e uma audição espirituais. Tu te encontras em outro mundo de existências, eis tudo. Também nós tivemos que passar pelas nossas crises, antes de nos acomodarmos ao nosso mundo. Desde que te hajas inteirado das condições em que te encontras, começarás a progredir para a redenção...”
  • Com grande surpresa minha, fui informado de que essa assembléia de Espíritos se reunira para vir em meu auxílio e que isso se dava por efeito de solicitações de um de meus amigos de outros tempos. Quão longe estava eu de imaginar quem era esse amigo generoso. Disseram-me que me cumpria entrar de novo, por algum tempo, no meio horrível donde me haviam tirado; mas, que um raio de luz ia penetrar nas trevas que me cercavam, porquanto, desde que um raio de luz penetra numa alma, não mais se apaga: esse raio de luz tinha que brilhar para mim como a estrela da esperança, que afinal me ia guiar para sair das trevas e caminhar para a luz.
  • Pouco depois, achei-me no mesmo meio que antes, mas uma pálida luz brilhava a meu lado e se tornou a minha estrela polar. Quando a contemplava, possuído de um desejo vivo, mais intensa se lhe tornava a luminosidade. Mostrava-se, ora à minha direita, ora à minha esquerda, porém nunca se apagava. Não me seria possível calcular o tempo que passei nessas trevas, atenuadas por um raio de esperança...
  • Hesito agora em prosseguir a narrativa dos acontecimentos pelos quais passou minha alma. A magnanimidade de um outro – absolutamente digno de Jesus_de_Nazaré – precipita meu espírito no abismo dos remorsos. A minha iniqüidade se ergue diante de mim, como fantasma perseguidor, a me proclamar o mais miserável dos pecadores. Entretanto, devo continuar, pois que a minha narração tem que dar uma pálida ideia do poder do Amor no meio espiritual. Não existe mais que uma só lei: o Amor, que é Perdão; o Perdão, que é Amor. Enfim, vou dar-me pressa em me confessar. Perdoai-me, se puderdes. Quanto a mim, não o posso. Sinto-me desfalecer.Aquele que me soube perdoar é o mais sublime dos homens, porém a sua generosidade me despedaça o coração e a iniqüidade da minha falta se levanta, monstruosa, diante de mim. O amigo que traí quando vivo, que abandonei ao seu destino, que reduzi a ser um proscrito da sociedade, foi quem reuniu esse grupo de Espíritos para me assistir!... Vi que esses mesmos Espíritos abriam passagem a um outro Espírito que se dirigia para mim, a sorrir. Olhei-o atentamente. Era ele! Ambrósio! o amigo que eu traíra! Estendeu-me os braços. Ocultei, envergonhado, o rosto no seu peito, para mais saturado me sentir de seus pensamentos de perdão e piedade... Paro! paro! Basta por hoje...”

____Quanto ao detalhe inteiramente capital, concernente ao poder_criador_do_pensamento no meio espiritual, notarei que o Espírito alude a isso muitas vezes em suas mensagens, acrescentando detalhes interessantes, o que me leva a extrair mais algumas passagens do texto.
____Exprime-se assim:

  • “No mundo espiritual o pensamento é tudo – o que não se dá no mundo dos vivos. Comunicamo-nos entre nós pelo pensamento; é pela força_do_pensamento, combinada com a vontade, que podemos criar todas as coisas de que temos necessidade. Para utilizarmos desta maneira a força do pensamento, não basta pensemos no objeto que desejamos: é preciso uma concentração firme do pensamento sobre esse objeto, pensando em todos os seus detalhes. Por exemplo, se pensarmos numa túnica branca, poderemos criá-la na sua mais simples forma; porém, se quisermos produzi-la de forma especial, de cor especial, com um determinado desenho, precisaremos fixar o pensamento em cada um desses detalhes, segundo a maneira pela qual queiramos se apresentem na túnica. Do mesmo modo, se quisermos criar pelo pensamento uma pintura – por exemplo, a reprodução de uma paisagem – devemos concebê-la no espírito com a maior nitidez. A não ser assim, apenas se formará um esboço mais ou menos confuso e informe. É por isso que, exercitando-se nas criações do pensamento, os Espíritos chegam a pensar com uma nitidez cada vez maior e a concentrar a vontade com uma eficácia sempre mais importante. A coisa é muito útil, pois que também no mundo espiritual grande necessidade se tem de pensar com clareza...

[106 - páginas 148 /157] - Ernesto Bozzano - (Gênova, 9 de janeiro de 1862 - 24 de junho de 1943)

Ver também:
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