Relato do Espírito Miss Felicia Scatcherd
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Crianças e Adolescentes
DESAPARECIDOS
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____Tiro-o da Revista Light (1927, página 314). Trata-se da manifestação de Miss Felicia Scatcherd, alguns meses depois de sua morte, ocorrida a 27 de março de 1927. Miss Felicia fora, em vida, uma das personalidades mais em evidência no movimento espiritualista inglês. Seu nome permanecerá na História, por ter sido ela quem fez as primeiras experiências importantes, de onde nasceram as teorias da “fotografia do pensamento” e da “ ideoplastia”.
____Relativamente à comunicação de que me disponho a citar algumas passagens, eis o que escreveu o diretor da Light:

  • “Não me é lícito publicar os nomes das senhoras que receberam a mensagem; mas, estou apto a declarar que elas nenhuma parte jamais tomaram no movimento espiritualista e que o médium é uma senhora por quem se obtiveram as mais verídicas comunicações que têm aparecido nestes últimos tempos.
  • Grande parte da mensagem em questão apresenta caráter meramente pessoal e contém numerosas provas de identidade, tanto mais notáveis quanto dizem respeito a circunstâncias absolutamente ignoradas dos assistentes e cuja veracidade foi comprovada mais tarde... Posso também fazer notar que Miss Scatcherd diz em sua mensagem que iria ao círculo Crew (no qual fazia, em vida, freqüentes experiências de fotografia transcendental), a fim de projetar a imagem de seu semblante numa chapa fotográfica, o que se realizou pontualmente. Aludiu, ao demais, a um de seus poemazinhos, indicando o tema dessa composição. As senhoras que assistiam à sessão desconheciam esses versos, que foram, em seguida, achados num artigo de miss Scatcherd, publicado depois de sua morte...”

____Parece-me que esses esclarecimentos tendem a confirmar admiravelmente a autenticidade da mensagem obtida.
____Aqui vão as passagens que se referem ao assunto com que nos ocupamos:

  • “O médium anuncia a presença do Espírito de uma dama distinta, morta havia pouco, que deseja vivamente manifestar-se a uma das senhoras presentes.

____Pergunta – Pode dar-nos o nome dessa dama?
Resposta – Esperem... vou experimentar... Rudolph...
Pergunta – Pode completá-lo?
Resposta – Felicity.
Pergunta – Felicity Rudolph tem alguma coisa a dizer?
Resposta – Ela está mais ou menos confusa; porém vai tentar.”

____Foi a primeira prova de identidade que o Espírito deu, porquanto Miss Scatcherd publicou muitos de seus artigos com o pseudônimo de “Felix Rudolph”, ao mesmo tempo em que seus íntimos costumavam chamá-la “Felicity”.
____Em seguida, o Espírito ditou a sua longa mensagem, da qual extraio os tópicos seguintes:

  • “Minha cara amiga, eu desejava ardentemente comunicar-me com você. Sou ditosa por poder fazê-lo. Orei para que isso me fosse concedido. É um fenômeno maravilhoso. Quantas coisas quisera dizer-lhe, minha querida! Começarei por aqui: que a morte absolutamente não existe; a significação dessa palavra é um contra-senso. Assim pensei sempre em vida, mas, às vezes, o corpo não estava de acordo com o Espírito. Agora o reconheço.
  • Antes de continuar, devo informá-la de uma coisa, a cujo respeito tenho certeza; é que nenhum peregrino do mundo dos vivos chega a este mundo pela mesma porta. O meio que aqui nos recebe se apresenta a cada um de nós de modo inteiramente diverso. Segue-se daí que o que lhe eu dissesse poderia não parecer perfeitamente idêntico a qualquer outra narrativa desse gênero...
  • O trespasse me foi tão fácil! Senti-me cansada e sonolenta; pela manhã adormeci ligeiramente. Foi então que percebi estranhas luminosidades, singulares filamentos luminosos. Senti-me em seguida a flutuar no espaço e a minha mente se tornou muito límpida. Pensei: “Como me sinto bem! Eu sabia que me havia de curar!” Minha inteligência se tornara de novo tão solerte, que já projetava pôr-me outra vez a escrever, para informar aos meus amigos que me sentia como se tivera vinte anos... Era uma estupefaciente sensação de bem-estar... Mas, não tardou que me inteirasse do que significava aquele repentino restabelecimento...
  • Um pouco de sonolência voltou em seguida a se apoderar de mim, por isso que aqueles filamentos_luminosos ainda me prendiam ao mundo dos vivos, entorpecendo-me o espírito. Repousei durante algum tempo... Mas, não se tratava de sono: era antes delicioso torpor. Uma_ultidão_de_recordações_antigas e ditosas me invadiam então o espírito: lembranças do tempo que passei na sua companhia e na de muitas outras pessoas. Porém, tudo isso se desdobrava com tranqüila serenidade, sem nenhum choque, sem dissonâncias. Nada do que se verifica de incoerente e desagradável nos sonhos propriamente ditos...
  • Muitas pessoas, dentre as que me eram mais caras, vieram em seguida ter comigo. Havia, entre outras, a mais querida de todas: minha mãe! Mas, quanto estava mudada! Tornei a vê-la tal como era na sua mocidade... Quisera que todos vós vos persuadísseis de que a vida_terrena é a parte mais desolada de nossa existência. Na realidade, ela não é uma vida...
  • Via-me mergulhada numa espécie de nevoeiro aljofrado, os Espíritos me informaram de que iam ajudar-me, com seus conselhos, para me facilitarem a ruptura dos filamentos luminosos que ainda me ligavam ao corpo. Segui-lhes, com efeito, os conselhos: tratei de pôr-me em absoluta calma de espírito; vi então desaparecerem os filamentos luminosos. Radical mudança se produziu lentamente em mim. A nuvenzinha aljofrada, de que me via cercada, tomou gradativamente uma forma. Compreendi que se tratava do meu corpo espiritual, que assumia gradualmente uma forma humana. Disseram-me então que, pela força do meu pensamento, eu poderia modelar, à vontade, os meus traços. Não é maravilhoso?
  • Entretanto, os pensamentos e as ações realizadas no curso da existência terrestre contribuem para a criação da natureza íntima do nossocorpo_etéreo”. Bem consideradas as coisas, vereis agora uma Miss Felicia muito mais moça e, penso, mais atraente. Em todo caso, seria sempre a mesma para você, minha caríssima amiga... (Ver: Iluminação do íntimo)
  • Dirigi um olhar ao meu velho corpo lívido e desfeito. Pareceu-me tão pouca coisa! Voltei o pensamento para as pessoas que me eram caras e que eu deixara na Terra. Desejava, sobretudo, vê-la ainda uma vez, assim como a A... Imediatamente vi você na sua cama, profundamente adormecida! Parecia muito fatigada, porém calma. Procurei entrar em comunicação com seu Espírito, mas este não se achava preparado para essa prova. Renovarei a minha tentativa noutra ocasião; entretanto, é preciso que, então, antes que você adormeça, pense fortemente em mim e reconstitua a minha imagem pela imaginação. Chegarei assim a fazê-la sair_momentaneamente_do_corpo e a trazê-la até a mim. É o que chamamos “uma entrevista no sono”. Tornará a me ver e me reconhecerá; mas, naturalmente, ao despertar suporá que sonhou. Lembre-se, no entanto, de que, ao contrário, teremos estado juntas...
  • Fui logo conduzida para longe dali pelos Espíritos que tinham vindo receber-me e que me explicaram haver construído o maravilhoso mundozinho deles, tirando-o daquele nevoeiro aljofrado que eu percebia, condensando-lhe, pelo poder do pensamento, as “vibrações” infinitamente sutis. Eles projetam nesse meio as formas_do_pensamento, que se revestem da substância espiritual. Chegam assim, pouco a pouco, a criar o seu meio. Quanto a mim, como é natural, ainda não me achava em condições de projetar as formas do meu pensamentonesse mundo exclusivamente mental; por isso, os Espíritos me conduziram à maravilhosa morada que eles próprios haviam criado. Mais tarde aprenderei, por minha vez, a construir o meu mundozinho pessoal...
  • Quanto ao meio, em geral, somos sempre nós que contribuímos para a sua criação; cada um traz para ali uma pequena parte do todo. Naturalmente, o trabalho é dividido, depois de todos se haverem posto de acordo com relação ao conjunto a ser criado. Grande número de Espíritos há que não se ocupam com essas criações, reservadas àqueles que manifestam disposições para essa espécie de trabalhos. A paisagem que me cerca aparece completa por si mesma e maravilhosa; mas é apenas a nossa paisagem. Asseguram-me, com efeito, que, para além da nossa, há outras muito diversas, porque almas há incapazes de apreciar o que se afaste da paisagem terrestre.
  • A minha amiga não pode imaginar quão eletrizante é o sentimento de criar dessa maneira. A intensidade passional com que todos a isso se afazem não se pode exprimir por palavras...
  • Falaram-me da existência de outras esferas infinitamente superiores à nossa e que desejo e espero alcançar um dia, ainda que esse dia deva estar para mim muito distante. Os Espíritos eleitos que as habitam executam, pelo poder da vontade, coisas que vos parecerão impossíveis, o que não impede sejam verdadeiras. É dessas esferas que se desprendem as “ centelhas_da_vida”, sob a forma, por assim dizer, de um “ fluxo_vital” que atinge o vosso mundo e é absorvido pelo reino vegetal. Para chegar a dispor de tanto poder, é necessário alcançar-se suprema perfeição espiritual; todos, porém, estamos em condições de ascender até lá. É o que me afirmam...”

[106 - páginas 115 / 120] - Ernesto Bozzano - (Gênova, 9 de janeiro de 1862 - 24 de junho de 1943)

Ver também:
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