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EQM - Sr. L. H. Hymans, 1930
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Crianças e Adolescentes
DESAPARECIDOS
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____O Dr. Eugênio Osty publicou e comentaram pela Revue Metapsychique (1930, págs. 191-193). Agora, porém, me limitarei a citar o que apresenta maior interesse, do ponto de vista em que me acho colocado. Trata-se de um episódio cujo relato foi enviado ao professor Richet, pelo Sr. L. H. Hymans, em data de junho de 1928. Diz assim o relator:

  • “Julgo conveniente informá-lo de um fenômeno que se deu comigo duas vezes e que parece provar que a consciência pode funcionar independentemente do cérebro.
    Duas vezes, em estado de plena consciência, vi distante de mim e inanimado o meu corpo, com a sensação precisa de que este, naquele momento, era um objeto exterior ao meu ser. Não pretendo tentar explicar como haja podido ver sem olhos. Apenas comprovo um fato.

    • Da primeira vez que este ocorreu, achava-me na cadeira de um dentista. Durante o período que passei sob a ação do clorofórmio, tive a sensação de haver despertado e estar flutuando no ar, próximo ao teto, de onde contemplava, com grande espanto, o dentista a cuidar da minha dentadura e a seu lado o cloroformizador a me vigiar. Via o meu corpo inanimado tão distintamente como qualquer dos objetos existentes no local. Durou poucos segundos esta experiência. Perdi a consciência e me achei de novo na cadeira completamente desperto, mas conservando nítida a impressão de tudo o que sucedera.
    • Da segunda vez, achava-me em Londres, numa hospedaria. Certa manhã, acordei adoentado (sofro de fraqueza do coração) e, pouco depois de haver despertado, tive uma síncope. Com grande espanto meu, achei-me suspenso no ar à altura do teto, donde contemplava, presa de terror, o meu corpo inanimado e de olhos fechados. Tentei, mas inutilmente, entrar de novo nele e me convenci de que devia estar morto. Pus-me a pensar na impressão que receberiam os donos da hospedaria, na dor dos meus parentes e no desgosto dos amigos. Perguntava a mim mesmo se ordenariam algum inquérito acerca da minha morte; porém, o que, sobretudo, me preocupava eram os meus negócios. É absolutamente certo que eu nada perdera da minha memória e da minha consciência. Via o meu corpo inanimado como um objeto à parte e contemplava tristemente o seu semblante, que se tornara lívido. Verifiquei, no entanto, que não me fora possível sair do aposento; sentia-me, por assim dizer, acorrentado àquele lugar, imobilizado no canto onde me encontrava.
  • Transcorridas uma ou duas horas, percebi que batiam à porta (fechada à chave) e que batiam repetidamente, sem que eu pudesse dar sinal de vida. Pouco depois, vi aparecer na janela o porteiro da hospedaria, que ali subira por uma alta escada. Entrou no quarto, mirou-me ansiosamente o rosto e abriu a porta. Logo entraram o gerente e outros empregados da casa; em seguida, veio um médico e vi que me sacudia a cabeça; depois, inclinou-se por cima de mim, colocou o ouvido sobre o meu coração e por fim me introduziu na boca uma colher. Nesse instante perdi consciência de mim como espírito e despertei repentinamente na minha cama. é de notar-se que esse fato se prolongou por cerca de duas horas.”

____A narrativa que se acaba de ler é muito interessante, principalmente o segundo episódio, em que se nos depara o fato nada comum de o indivíduo desdobrado permanecer assim, plenamente cônscio de si, a observar tudo o que se passava ao derredor do seu corpo, durante duas horas consecutivas. É uma circunstância esta teoricamente notabilíssima, porquanto elimina toda possibilidade de qualquer sofisma baseado na fugacidade das impressões desse gênero. Aí, o indivíduo desdobrado se conserva fora do corpo, com plena consciência do seu estado, por duas horas seguidas.
____é também digna de nota a observação do protagonista, de não poder sair do quarto, como se estivesse acorrentado ali, indício manifesto de que, se ele não se apercebeu da existência de um cordão_fluídico que o prendia ao corpo, por outro lado não lhe escaparam as conseqüências inevitáveis desse mesmo vínculo.
____Observarei, finalmente, que ele, como tantos outros, tira, das suas próprias experiências, a lógica dedução de que a consciência pode funcionar independentemente do corpo.

[111 - páginas 126/ 127] - Ernesto Bozzano

Ver também:
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