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EQM - episódio da Grande Guerra, 1929
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Crianças e Adolescentes
DESAPARECIDOS
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____Este caso tiro-o do Journal of the S. P. R. (1929, página 126). É um episódio da Grande Guerra. O próprio protagonista o comunicou ao professor Oliver_Lodge que, a seu turno, o transmitiu à direção daquele órgão.

____Narra-o assim o protagonista:

  • “... Deixamos Monchiet à tarde e, depois de horrível marcha por uma estrada em que se escorregava continuamente, pois não havia um palmo de terreno que não fosse lama misturada a neve derretida, chegamos a Beaumetz, já noite. Brevíssima parada e de novo em marcha para Wailly, uma linha de fogo. Aí penetramos numa trincheira de comunicação, patinhando na água lodosa. Era comprida de uma milha aquela trincheira e nos pareceu interminável. O lodo líquido nos chegava ao joelho, ao mesmo tempo em que um chuvisco gelado nos flagelava implacavelmente o rosto, enregelando-nos até aos ossos. Chegamos, afinal, à linha de fogo, onde substituímos um batalhão francês. Encontramo-nos na pior das trincheiras. Desde muitos meses, nenhuma reparação sofria. Em vários pontos estava desmoronada e não protegia ao fogo inimigo as nossas cabeças; achava-se por toda parte transformada numa gamela de estrume liquido. Eu e H. fornos imediatamente mandados a montar guarda. Estávamos tão extenuados, que nem para maldizer da sorte tínhamos forças. O corpo estava exausto, encharcado, regelado até à medula pelo chuvisco implacável que nos flagelava; morríamos de fome, sem qualquer espécie de alimento. Não tínhamos meio de acender fogo, nem marmitas para nos realentarmos, ao menos, com água quente. Nem uma polegada de terreno onde nos sentássemos, nem um palmo quadrado de parapeito atrás do qual fizéssemos calar a fome com uma cachimbada. H. e eu concordamos em reconhecer que jamais houvéramos crido possível que a tal extremo pudessem concentrar-se os sofrimentos inelegíveis a uma criatura humana. Entretanto já tínhamos conhecido não poucas noites de inaudito martírio.
    Muitas horas transcorreram naquela horrenda situação, quando, de súbito, tudo mudou para mim. Tornei-me consciente, certissimamente consciente de achar-me_fora_do_meu_corpo. Comprovei que o meu Eu real, consciente, o espírito – pouco importa o nome – se havia totalmente libertado do organismo_corpóreo e, de fora deste, eu contemplava aquele mísero corpo vestido de cinza-verde, que era o meu, mas olhava-o com absoluta indiferença, pois que, embora cônscio estivesse de que o aludido corpo me pertencia, já não havia laços que me prendessem ao seu martírio e o considerava como se de outrem. Sabia que ele havia de estar sofrendo de maneira horrível; porém eu, isto é, o espírito, não sentia coisa alguma.
    ____Enquanto estive naquela condição de ser, o fato me parecia natural; só quando entrei de novo no corpo me convenci de que passara pela mais maravilhosa experiência da minha vida... Nada nunca poderá abalar a minha convicção íntima e profunda de que naquela noite de inferno o meu espírito se separou temporariamente do meu corpo...”

____A propósito desta última declaração do infeliz protagonista de tão doloroso episódio, importa notar que, em face da minha classificação dos fenômenos de “ bilocação”, se evidencia que todos quantos hão passado pela solene experiência aqui considerada guardam inabalável a convicção de terem assistido ao fato de seus espíritos se separarem dos respectivos corpos e, por conseguinte, conservam, também, inabalável, a certeza de que o_espírito_sobrevive_à_morte_do_corpo. Assim sendo, é natural se mostrem intolerantes para com as afirmativas negativistas dos representantes da ciência oficial, os quais, nunca tendo passado pela grande aventura de se reconhecerem a existir, com as suas personalidades conscientes, sensientes e inteligentes, fora de seus corpos, estranhos aos seus corpos, em presença de seus corpos, não se acham em condições de formar opinião justa do valor prático e positivo de uma convicção fundada em experiência de tal natureza.

[111 - páginas 124/ 125] - Ernesto Bozzano

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